Google+ Badge

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Filha de Che Guevara, um desabafo, uma entrevista

Filha de Che teme que reformas afetem consciência social em Cuba
Publicidade
ELEONORA DE LUCENA
ENVIADA ESPECIAL AO RIO





Ela se declara apenas uma militante da base do Partido Comunista Cubano, mas carrega o sobrenome de um mito da esquerda. Aos 50 anos, a pediatra Aleida Guevara se ocupa em cuidar da memória do pai e faz uma defesa inflamada do modelo da ilha.

Nesta entrevista, ela expressa seu temor pessoal de que as reformas em curso na ilha que permitiram a venda de imóveis e carros afetem a consciência social da população, pois podem inflar o individualismo. No Brasil para dar palestras, ela fala de política e da herança de Che Guevara.

Rafael Andrade-28.06.11/Folhapress

Aos 50 anos, a pediatra Aleida Guevara se ocupa em cuidar da memória do pai e faz uma defesa inflamada de Cuba

Folha - Como vê o Brasil hoje?
Aleida Guevara - Para quem vem de fora é muito fácil analisar a situação. Para quem vive a realidade cotidiana é mais difícil. Por isso não é bom perguntar a quem vem de fora sobre a realidade do teu país, porque não tem base sólida para falar. Como trabalho com o MST há tanto tempo, uma das coisas que sempre tenho visto é a necessidade de repartir a terra, fazer uma reforma agrária profunda. Para que este país possa solucionar de verdade seus problemas de sua gente mais simples, do campo. Isso eu posso dizer. Mas, como o Brasil vai, só os brasileiros sabem. Vim participar da conferência de agroecologia em Londrina.

E como vão as coisas em Cuba?
Estamos em um momento de buscar solução a problemas reais que temos tido durante muito tempo. Há problemas atuais que o país vive por causa da crise econômica, que atinge todos os países do mundo. Estamos discutindo os problemas com todo o povo, analisando-os nos locais de trabalho, nos bairros. O congresso do partido analisou tudo o que resultou dessas reuniões populares e se chegou a um consenso de que vamos fazer algumas mudanças na economia familiar. Resolver um problema de família, de pessoas que estão sem emprego neste momento porque o Estado não pode seguir sustentando pessoas que trabalham sem produzir. Quando perdemos o campo socialista europeu, Cuba sofreu uma crise brutal e o Estado amparou todo mundo durante todo esse tempo. Agora a situação da economia interna melhorou. Portanto há possibilidades reais para que essas pessoas possam trabalhar independentemente. Não queremos desamparar os que não estejam trabalhando para o Estado. Por isso é que vem essa possibilidade de trabalho individual. Porque nós, pela Constituição, teríamos que analisar quais são os itens da Constituição atual que se chocariam com essas mudanças. Por isso toda essa análise popular, profunda. Se é necessário mudar algum item da Constituição, que o povo saiba o que se está fazendo e porquê. E o plebiscito que se tenha que fazer será faz mais rápido e mais fácil.

O que teria que mudar na Constituição?
Foi acordado na Constituição que Cuba é uma sociedade socialista. Dentro dessa sociedade socialista há normas, regras. Quando se diz agora que há pessoas que vão trabalhar por conta própria, pode ser alugar sua casa, o que não existia. Essas pessoas que agora estão trabalhando por conta própria, se quiserem outras pessoas para trabalhar, que seja pago um salário justo, por lei. Por exemplo: se quiseres alugar um quarto da tua casa e empregaste alguém para fazer a limpeza. Antes esta pessoa não estava protegida por nenhuma lei. Agora, com as mudanças, essa pessoa estará protegida também pelas leis do Estado cubano. Essas leis precisam ser implementadas na Constituição.

O último congresso do partido abriu possibilidade da propriedade privada de imóveis e carros...
Digamos que não é propriedade privada. Eu, por exemplo, se paguei por um carro, ele é meu. O problema é que eu não tinha direito de vendê-lo. Agora tenho. O que mudou é que é permitido ao cidadão que é dono de um carro vendê-lo legalmente. É sua propriedade, é seu direito. Como em relação a casas. Se uma casa é legalmente tua, tu podes vendê-la.

Mas isso é reconhecer a propriedade privada.
Dentro do que já existia, na propriedade individual. Que podes chamar de privada, se quiseres. É tua. O problema é legalizar essa propriedade para que você possa usá-la para o que quiseres.

A sra. não acha que isso se conflita com o princípio socialista?
Não. Isso não tem nenhum tipo de problema com os princípios socialistas. A questão não está em vender a tua casa ou o teu carro ou trocá-lo. Isso me parece que é muito bom que possamos fazê-lo livremente, sem nenhum tipo de trava. A questão está em que agora há trabalhadores por conta própria. Esses trabalhadores vão buscar o seu benefício pessoal. O meu temor pessoal como cidadã a pé eu não tenho nada a ver com a direção do governo cubano; sou uma médica cubana meu temor é que as pessoas que comecem a trabalhar para si mesmas percam um pouco a questão social, a consciência social. Vivendo numa sociedade socialista, nós trabalhamos para um povo. Quando tu começas a trabalhar para o teu bolso, para o teu bem estar pessoal, temos o risco de perder essa conexão social que mantivemos por toda a vida. Essa é a minha preocupação pessoal. O Estado socialista e segue sendo socialista porque não há privatização nos grandes meios de produção. Isso não se tocou e não se vai tocar. O povo cubano segue sendo dono de tudo o que se produz no país. Podes ser dono do que tu fazes em tua casa, um restaurante, um salão de beleza, serviços. Mas os grandes meios de produção, tudo está com o Estado, que, portanto, é do povo. Nesse sentido não há nenhum tipo de mudança.

As reformas foram feitas para tirar do Estado o peso de pessoas que..
Exatamente. De pessoas que vão ficar sem trabalho pelo Estado, porque o Estado não pode seguir sustentando essa situação. Temos feito melhorias econômicas. Essas pessoas ficam livres de trabalhar para o Estado e ter o seu próprio trabalho. E o Estado sai dessa tensão de manter alguém que não estava produzindo.

O seu temor é que essa reforma, que pode ser lida como mais privatizante, afete a consciência social?
O homem pensa segundo vive. Essa é a preocupação, simplesmente. Se você está vivendo somente interessado em melhorar a tua casa, em melhorar a quantidade de dinheiro que tem no bolso, em melhorar a vestimenta, você se esquece que a escola infantil da esquina, onde seus filhos e netos estudam, precisa de uma mão de pintura. Você será capaz de deixar um pouco desse dinheiro para doar à escola? Se você é capaz de fazê-lo, eu calo a boca e sou feliz. Essa é a minha preocupação: que você perca essa perspectiva, que não se preocupe com a perspectiva de comunidade social, que é o que nós somos e pelo que seguimos vivendo.

Por que é difícil fazer uma renovação nas lideranças cubanas? Por que não há jovens lideranças?
Nosso ministro de educação superior tem 51 anos, não é tão velho.

Mas na liderança maior...
Vai se renovando. As pessoas que vão chegando, vão provando como são, como atuam, qual a capacidade. Isso está havendo com vários dirigentes. O chanceler de Cuba tem 50 anos. Para chanceler, é relativamente jovem. Vamos vendo como essa nova geração, a minha geração, vai ocupando uma série de lugares de direção no país. É uma questão que vai se fazendo pouco a pouco. A questão mais importante é do conhecimento de como elegemos a nossa gente. Nenhuma imprensa do mundo fala das eleições em Cuba.

Como a sra. responde aos que dizem que Cuba é uma ditadura, não há liberdade de imprensa?
É simplesmente uma falta de conhecimento total da realidade cubana. Nós temos eleições populares, muito mais democráticas do que qualquer outro país. Porque é o povo que elege diretamente os seus candidatos. Desde a base. Não há organizações políticas que digam: é esse, esse. É o povo quem diz. Uma reunião de vizinhos diz: fulano e fulano. E explicam porque propõem. Cinquenta por cento mais um da assembleia reunida têm que dar a aprovação. Se a pessoa é aprovada, ninguém pode derrubar essa aprovação. É uma decisão do povo. Então esse passa a ser candidato.

Mas o partido é único.
Mas o partido não tem nada que ver com as eleições. O partido é um partido dirigente, diretor da conduta social nessa sociedade, nada mais. Não tem nada que ver com as eleições. As eleições são de baixo, do povo. Nós elegemos o candidato ao município. As eleições ocorrem a cada dois anos e meio. A cada cinco anos essa assembleia municipal elege uma comissão eleitoral dentro de seus membros e começam a receber propostas das organizações de massa do país. Por exemplo: os camponeses têm uma organização de massas. Se nesse município há camponeses, eles têm direito a propor candidatos para a província e para a nação. Se há faculdades ou universidades, a organização de estudantes universitários tem direito a propor candidaturas a essa assembleia municipal. Assim, se há um hospital, o sindicato da saúde tem direito a fazê-lo; se há uma unidade militar, os militares têm direito há fazê-lo. Todas as organizações sociais que existem nesse território têm direito a propor candidatos à província e à nação.

A comissão eleitoral da assembleia municipal reúne toda essa informação e faz uma eleição. Faz uma cédula para a província e para a nação. Essa candidatura se discute no pleno da assembleia municipal. E a assembleia municipal tem que aprová-la em 100%. Se não a aprova, a comissão eleitoral tem que recomeçar o seu trabalho. Até que o município aceite essas candidaturas. Quando forem aceitas essas candidaturas, se apresenta a votação para o povo. Província e nação. O que aconteceu com a nação? Se tu deixas que o povo cubano diga realmente o que querem desde baixo para a nação, os históricos seriam sempre indicados. Todo mundo vai propor Fidel, Raúl, Ramiro Valdez. Gente é conhecida, em quem se tem confiança e que se sabe que vão seguir o caminho da revolução.

Mas não é possível porque é preciso dar espaço a novas gerações. Por isso é que os dirigentes históricos somente poderiam ser propostos pelo seu município. Por exemplo, Ramiro Valdez somente pode ser proposto pelo município de Artemísia. Santiago de Cuba é o único município que pode propor Raúl e Fidel. Desde o início tivemos que fazer assim porque as pessoas tinham a tendência de indicar sempre Fidel e Raul.

Nossa assembleia tem 38% de mulheres. Uma percentagem importante de jovens. Está bastante equilibrada entre trabalhadores do campo e da cidade. Depois vamos às urnas e elegemos. Quando a assembleia está eleita pelo povo, se reúne e elege, dentro do seu seio, o presidente, secretário, vice-presidente, o conselho de Estado, os ministros. A assembleia nacional de Cuba e o Conselho de Estado tem que ser eleitos diretamente pelo povo.

Então não há um problema de renovação?
O problema está em que o povo cubano conhece a sua gente. Se tu conheces a tua gente, querem que sigam dirigindo. Se fizeram bem até agora, por que queres mudar? Ao contrário. O que as pessoas realmente temem é que poderíamos eleger um jovem neste momento que não tenha as possibilidades intelectuais que tem hoje, por exemplo, Raúl. Estamos seguros com ele. Nos sentimos seguros com ele. Por isso se elege. Quando não o tivermos, estaremos obrigados a buscar outras possibilidades. Por isso é bom ter ministros mais jovens para ver como se comportam. O povo pode dizer se esse agrada ou não. E pode pensar desde agora: esse ministro está trabalhando muito bem, é uma pessoa direita, é austero --isso observamos muito. Se são ministros que têm contato com o povo. Que as pessoas confiem em relação à sua atitude em relação à vida.

Como justificar a questão da oposição, dos presos políticos, as damas de branco?
Meu Deus! O conceito de preso político é presos por suas ideias. Em Cuba não existem esses presos. Em Cuba existem presos por ações contra o povo. Ações de delito. Colocar, por exemplo, veneno na água de uma escola infantil é terrorismo. Esse está preso. Incendiar a telefonia de Cuba. Isso o que é? É uma ação terrorista.

Então não existem presos políticos; existem terroristas presos?
Existem terroristas. Existem os que fazem isso do ponto de vista econômico também. Porque vivemos com o bloqueio dos EUA. Nos últimos anos, eles têm aplicado a lei do bloqueio de outras formas mais sofisticadas.

Como?
A lei Helms-Burton fala que, se você tem uma empresa e quer ir a Cuba negociar, alugar uma casa, um edifício para implantar a empresa, você pode ser penalizado se esse edifício onde você colocou a sua empresa pertenceu a alguém que vive hoje nos EUA. Pela lei Helms-Burton os EUA podem penalizar essa empresa por U$ 5 milhões, 10 milhões por ocupar um lugar que pertenceu a um norte-americano. Imagina! Em Cuba as melhores residências pertenceram a essa gente dos EUA. Os 20 mil melhores hectares pertenciam aos EUA.

Com quem vamos negociar? Há empresas que se atreveram a fazer essas coisas. Há mercenários pagos diretamente pelos EUA e países europeus que se dedicam a dar esse tipo de informação ao FBI. Isso prejudica muito o nosso país. Muita s empresas, panamenhas, por exemplo, tiveram que sair porque foram penalizadas por isso. O povo cubano se prejudicou. Essas pessoas quando foram detectadas e foram presas. Por fazer dano ao nosso povo. A maioria já esta praticamente livre. Por causa de um trabalho que alguns ministros espanhóis fizeram para libertar essas pessoas.

O embargo não mudou nada com Obama?
O bloqueio. A palavra embargo em espanhol significa que os EUA embargam nosso direito comercial com eles. Esse é um direito deles. Não protestamos contra isso. Protestamos quando os EUA tem o propósito de que nenhum outro pais do mundo comercialize livremente com Cuba. Isso é o bloqueio, fechar um país. Isso é o que estão fazendo conosco toda a vida. Com Obama, acreditávamos que, por ser o primeiro presidente negro na história desse país que é tão racista, esse homem teria outras perspectivas. Nos equivocamos. Obama responde aos interesses da grande indústria dos EUA. Não fez nenhuma mudança importante.

Ele entrou na presidência prometendo que a base militar de Guantánamo seria fechada. Isso não ocorreu até agora. Seguem tendo presos ilegais em nosso território nacional. Essa base é roubada de Cuba. Ela foi negociada em 1902. E, depois, em 1904. A partir de 1904, este contrato entre o governo de Cuba na época e os EUA nunca mais foi tocado. Por leis internacionais, um contrato que tenha mais de cem anos e que não seja tocado, morre por morte natural. São as leis internacionais desse mundo. Apesar disso, os EUA não aceitam. Faz mais de cem anos que esse contrato já faleceu. E mantém ilegalmente esse nosso território ocupado.

E Cuba nada pode fazer?
Cuba protestou em todos os meios, nas Nações Unidas, em todo o tipo de organização do mundo. Não há resposta. Quando os EUA começaram a usar a base como um cárcere ilegal, Cuba protestou em todos os níveis, em todas as organizações internacionais. Não houve resposta. Que podemos fazer? Tirá-los de lá, com muito prazer o faríamos. Mas seria a desculpa que teriam para nos atacar.

Volto a perguntar sobre as damas de branco. Há quem diga que a primavera árabe pode chegar à Cuba. A sra. teme isso?
As damas de branco são para mim uma vergonha como mulher. O que elas pedem? Que se deixem livres assassinos, terroristas, pessoas que atacaram a economia de seu próprio povo, mercenários que se venderam aos interesses dos EUA e da Europa? E que uma mulher não enxergue que seus próprios filhos estão numa sociedade livre, uma sociedade que cuida das crianças, do momento em que nascem até os últimos anos de sua vida. Uma sociedade em que a educação é totalmente gratuita. Não importa se és dama de branco, de preto ou de verde. Como não são capazes de valorizar essas coisas? Que posso esperar de uma pessoa assim? Se uma pessoa tem princípios e luta pelos teus ideais, eu a respeito, mesmo que não sejam os meus [ideais]. Mas quando essa pessoa recebe dinheiro para fazer essas ações? Quando recebe dinheiro e vive desse dinheiro para fazer esse tipo de coisa contra o teu próprio povo? Não vou respeitar essa pessoa. Não posso respeitar um mercenário.

É o caso das damas de branco?
É o caso de todas essas senhoras. O que estão defendendo? A quem estão defendendo? Pessoas que colocaram veneno em água de crianças, que tentam incendiar uma central telefônica e que contratam pequenos delinquentes no país para tentar desestabilizá-lo? Por muito humana que eu seja, por muito que eu queira, não posso aceitar. Porque não estão defendendo ninguém, nada que seja justo. Se elas fizessem de coração, se não recebessem dinheiro para fazer tudo isso, eu poderia tê-las em conta. Porque são mulheres, podem amar a seus maridos. Pode ser um filho da puta. Se está apaixonada por ele, tem que se respeitar. Mas que nasça de ti, não que recebas dinheiro para fazer todo o show que fazem. Não posso apoiá-las. É isso que acontece com as damas de branco. O povo as rechaça. As rechaça ao ponto de que a policia nacional teve que protegê-las. É uma reação do povo, que sabe o que estão fazendo essas senhoras. Nós temos um nível cultural importante na população.

Mundo árabe é muito diferente de nós. São culturas, situações diferentes. A revolução cubana é uma revolução de base, do povo. O exército cubano é um exército do povo. Sou uma médica e estou defendendo tranquilamente o que é meu, de meus filhos e netos. Isso me dá direito de fazê-lo. No mundo árabe não houve revoluções desde as bases. Não há revoluções populares realmente. Houve movimentos importantes, por exemplo, no Egito, mas se perderam faz muitos anos. A revolução de Nasser se perdeu. A situação em que vivem esses povos é às vezes extrema. Eu respeito o mundo árabe, gostaria de conhecer muito mais. Mas é muito diferente do meu. E os problemas internos sérios somente seus povos podem resolver. Quem sou eu para dizer aos libaneses, por exemplo, como devem se comportar? Os únicos que podem determinar como podem ser dirigidos são os libaneses.

Mas há uma ebulição no mundo árabe agora, não?
Desgraçadamente vejo muita manipulação, de grupos dentro do mundo árabe que estavam incomodados por falta de poder. Utilizaram a necessidade de um povo de buscar soluções para o que sofrendo para chegar ao poder também. Tomara que os povos logrem os seus objetivos. Até agora o que estamos vendo é uma manipulação de situações internas para provocar alguns distúrbios. Tiraram um tirano no Egito. Buscam um mais suave, que convenha melhor aos interesses externos que existem no Egito. Se o poder é tomado e se atrevem a nacionalizar todas as riquezas do Egito e fazer isso em benefício do seu povo, aleluia, perfeito. Até agora não vemos isso. Temos que esperar para ver o que vai acontecer. Nenhum país tem o direito de interferir nos problemas internos do outro.

Como acontece na Líbia.
Nenhum. Muito menos a Otan, estimulada principalmente pela Espanha, pois o petróleo líbio é o petróleo que Espanha utiliza. Esse é o objetivo dessa guerra. Há que ter respeito aos povos. Eu pergunto, quando na história da humanidade um país do chamado primeiro mundo pediu ajuda a um exército do terceiro mundo para resolver seus problemas internos? Nunca. Quem dá o direito a um país do primeiro mundo intervir em um país? Quem deu esse direito? O Plano Colômbia, por exemplo. Colômbia é produtora de coca, mas coca ancestral. Esse povo não consome a coca como os Estados unidos consumem a cocaína. É diferente. Se os Estados Unidos e a Europa não consumissem essa cocaína, não teríamos o problema com a coca na Colômbia. Por que se mantém o negócio? Porque há muitos interesses nos EUA e Europa que provocam esse tipo de situação. Porque não resolvem o seu problema. Por que vêm meter sete bases militares na Colômbia?

A vitória da esquerda no Peru muda algo na América Latina?
Estamos vivendo a Alba, a alternativa bolivariana, com Venezuela, Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua e duas ilhas pequenas do caribe. Temos intercâmbios culturais e econômicos, respeitando idiossincrasias e soberanias. Mas sendo cada vez mais companheiros na luta pelo bem estar do povo. Esperamos que Peru se una. Mercosul é outra instituição. Seria fantástico se Brasil e Argentina se unissem à Alba, pois isso significaria que não há retrocesso para a AL. Se os gigantes latino-americanos se unissem num processo emancipador da América, não haverá o que nos detenha.

Como está Fidel?
Bastante bem. Quando saí de Cuba (em 23/06), estava bem, tinha ido visitar Chávez.

E como está Chávez?
Não o vi pessoalmente, mas o que sei é que está bastante bem, muito recuperado. Gosto muito dele. É um grande amigo.

E o câncer?
Que eu saiba, não há câncer. O problema é que se tem ou não tem, não é importante. O importante é que tenha a capacidade para seguir dirigindo e resolvendo os problemas de seu povo. Qualquer ser humano pode ter qualquer tipo de enfermidade. Por ser um presidente não está isento de ter enfermidades. Se ele agüenta, resiste e se sente em condições para seguir adiante...

Não seria melhor anunciar publicamente o que ele tem?
Mas se não tem, porque vai anunciar?

Mas ele está há muito tempo em Cuba.
E é uma operação de joelho, necessita de tempo para recuperar-se. Tem o peso do corpo...

Mas não foi um abscesso?
Há muitas versões.

Por isso que pergunto se não seria melhor divulgar o oficial.
O problema das coisas oficiais...O porta-voz do governo bolivariano deu uma explicação pública, mas todo mundo repete o que diz Miami. De que adianta dar explicações a toda hora se um porta-voz oficial diz algo, mas as pessoas dizem outra. Que objetivo tem que eu diga algo se não vais me acreditar?

Cuba é hoje dependente da Venezuela como foi no passado em relação à URSS?
Não. São coisas diferentes. Venezuela é um país latino-americano como nós, a mesma cultura, maneira de ser. Estamos numa mesma organização latino-americana. Também tivemos muito respeito com a URSS.

Mas a dependência econômica? Cuba é dependente hoje da Venezuela?
Não. Temos intercâmbios importantes, sobretudo no petróleo. Estamos buscando energias alternativas, como a solar. Não há uma dependência. Poderíamos estar hoje perfeitamente bem sem a Venezuela. Claro, há algumas coisas que seriam prejudicadas. É melhor ter um amigo por perto do que um inimigo. Bolívia, apesar de mais longe, também.

E o Brasil?
Com o Brasil temos muito boas elações diplomáticas. Há muitas empresas brasileiras em Cuba. Empresas brasileiras que comercializam com Cuba muito bem.

Quais?
Melhor não mencioná-las.

Como é a sua vida? Como é conviver com a herança de Che?
Tenho 50 anos, duas filhas. A maior tem 22 anos, acabou de se graduar em economia em Havana. A segunda tem 21 anos e está terminando seu terceiro ano de medicina. É o tesouro maior que tenho como ser humano. Trabalho muito com crianças, sou pediatra. Trabalho também numa escola para crianças com necessidades especiais em Havana. Que também me fazem muito feliz, me fazem melhor ser humano todos os dias. Pois são crianças muito especiais, com uma grande capacidade para amar. Trabalho também em casas de amparo. Dou consultas como médica, trabalho no centro de estudo Che Guevara, levando a imagem de Che. Meu salário é como medica, especialista de primeiro grau.

Você mora em Havana?
Sim. Minha filha menor vive comigo; a maior vive com sua avó paterna, pois seu pai faleceu há alguns anos. Tenho também meus irmãos.

O que eles fazem?
Camilo, 49, trabalha no centro de estudos Che Guevara. Célia é veterinária especialista em mamíferos marinhos e trabalha no aquário nacional de Cuba. Ernesto é advogado, mas gosta de trabalhar com motos. É mais mecânico do que advogado. Trabalha por sua conta. E mamãe, que é o centro. É diretora do centro de estudo Che Guevara.

Há machismo em Cuba?
Sim, há algo. Superamos muito com a revolução. Fizemos um giro de 180 graus. Não é possível arrancar tudo de uma vez. É lento. É possível fazer mudanças econômicas e sociais num estalar de dedos, mas mudanças mentais levam tempo. A geração das minhas filhas é muito mais forte, Sabem quem são e para onde vão. Também os homens têm hoje um conceito muito mais aberto. Temos avançado muito. A dupla jornada de trabalho da mulher vai diminuindo.

Como lidar com o mito Che?
Mito, não. Quando falas, por exemplo, de Cristo, é muito distante do ser humano, não sabes se existiu ou não. Che não pode converter-se num mito. Ele era um homem como qualquer um de nós. Isso é o que o faz bonito, completo. Que sendo humano, com todos os problemas e deficiências humanas, soube ser um ser humano melhor. É o que queremos que nossos filhos entendam, aprendam. E que consigam seguir esse exemplo de vida, de ação, de honestidade, de integridade como ser humano.

A imagem dele está por toda parte, mercantilizada em camisetas. Quem as usa sabe quem ele foi?
Algumas pessoas que usam essas camisetas sabem quem ele é e têm consciência. Outras não. Não sei por que usam. Talvez porque papai era muito bonito e as pessoas gostam da imagem. Não posso dizer. Já vi pessoas que não sabem quem ele é e usam sua camiseta. Na Itália, por exemplo, homens da juventude fascista pediram a meu irmão e a mim que assinássemos uma camiseta. E quando nos disseram que eram da juventude fascista, dissemos que eles estavam loucos, que precisavam estudar o Che para ver quem ele era.

Também aconteceu na Itália que dois homens começaram a me olhar muito. Estranhei. Quando perguntei por que me olhavam, me disseram: se tu és real, quer dizer que Che era um homem como nós. Me tocaram. Viram que eu era de carne e osso. Pela primeira vez me senti útil só por ser filha de Che. Sim, tão real como eles, e por isso tão difícil de alcançar. Superar outro ser humano que soube ser melhor que nós. Isso é difícil.

A sra. quase não conviveu como ele.
Muito pouco. Tinha quatro anos e meio quando ele partiu para o Congo. Depois ele regressou a Cuba de forma clandestina. Porque não queria de despedir novamente do povo cubano; já tinha feito isso oficialmente. E, quando voltamos a vê-lo, ele estava transformado numa outra pessoa. Portanto durante muitos anos eu não soube que aquele homem era meu pai. A mim me resta minha mãe, que o amou profundamente e passou esse amor a seus filhos e os seus amigos mais próximos, que sempre nos contavam coisas, mantendo essa imagem que eu admirava. Essa imagem foi crescendo muito. Quando completei 16 anos me perguntei porque eu gostava de meu pai, se não o tinha tido perto de mim quase nunca. Busquei alguns flashes de memória e me dei conta que esse homem que havia amado de verdade. O que tu podes fazer é devolver esse amor, apesar de não estar presente. É o que fazemos.

E você tem alguma lembrança forte dele?
Sim, por exemplo. Acho que foi nos últimos momentos antes da viagem para o Congo. Meu irmão Ernesto havia nascido há apenas um mês. Tenho uma imagem de minha mãe, com meu irmão apoiado sobre seu ombro. Eu estou embaixo olhando a cena. Meu pai está vestido como militar e tocado com uma mão muito grande a cabecinha do bebê. Essa imagem sempre me ficou na retina. Não falei com ninguém, era minha, muito linda. E eu sou mãe também e me ponho a pensar nesse momento, quem sabe de despedida, em quanta preocupação ele poderia estar tendo com esse bebê, se esse bebê, quando crescer, vai entender porque ele não estava. [Chora, tentando conter as lágrimas] Toda uma série de coisas. E esse momento me faz pensar em meu pai com muito amor, com muita força. Porque ele foi um homem capaz de amar com tanta ternura e, ao mesmo tempo, capaz de seguir o seu caminho, de saber que é mais útil noutro lugar. É o melhor exemplo de um verdadeiro homem, de um verdadeiro comunista: de oferecer o melhor da sua vida apesar de si mesmo.

Depois tive outro encontro, quando ele regressou do Congo, já transformado em outro homem. Não sabia que era papai. Essa noite eu caí, bati forte a cabeça. Ele me tomou em seus braços, me protegeu. No fim, eu disse alto: mamãe, acho que esse homem está apaixonada por mim. E deve ter sido algo muito duro para ele, porque não pode me explicar porque me queria de uma maneira muito especial. Mas para mim foi ótimo. Porque quando depois soube que aquele homem era meu pai, apesar de naquele momento não saber quem era, apesar do seu disfarce, eu senti que esse homem me amava de uma maneira muito especial e isso é bonito para qualquer filho.

Essa cena do disfarce está no filme de Steven Sodenbergh. O que achou dos filmes que foram feitos?
O filme com Benício não gostei. Gostei mais do filme de Walter Salles. Não que não goste do ator. Benício fez o maior esforço. Mas a coisa histórica. Na primeira parte, por exemplo, ocultou a parte de papai como formador de homens. Isso não se vê no filme, e talvez seja a parte mais importante de meu pai. Depois, a parte da Bolívia. Fazem toda uma película de guerra. Mas não está o sacrifício dos homens que, como meu pai, largaram tudo para ser útil para outro povo. Isso não se sente no filme. O filme de Walter Salles é muito melhor, muito mais respeitoso, mais real, feito com uma entrega total, eu me identifiquei muito.

Como foi desfilar no Carnaval de Florianópolis?
Levei uma bronca de minha mãe. O Carnaval de Cuba é diferente, é brincadeira. Aqui é uma expressão cultural, tem outra conotação. Depois aprece comigo, num carro alegórico tipo tanque, um homem vestido como meu pai. Isso para minha mãe é um insulto, porque ela respeita muito a sua imagem. Mas eu senti o respeito e a admiração desse jovem por meu pai. Mas minha mãe não gostou.

Como a sra. avalia a manutenção da memória sobre o seu pai?
Muitas coisas faltam. Um das mais importantes é que não há publicações suficientes para os jovens, sobre sua imagem, sua vida. Há muitos livros publicados por terceiros. Mas obras feitas por Che não há para toda a juventude. Esse é um dos objetivos do centro de estudos Che Guevara: fazer esse tipo de publicação.

Trabalhamos com uma editora australiana para levar toda a obra de meu pai aos jovens. Temos doze livros publicados. Há um dedicado aos jovens que se chama Che a partir da memória. É uma compilação de escritos dele desde que ele tinha 16 anos. Tem outro sobre América Latina. Outro sobre economia política, no qual ele faz uma crítica aos manuais de economia da URSS daquela época. Há apontamentos sobre o Congo. Tem discursos, como ele fez em Punta Del Este contra a Aliança para o Progresso. Há o discurso de Argel. Tem o texto sobre o homem e o socialismo em Cuba, que é, para mim, como uma bíblia.

Como está a juventude em Cuba?
Bastante sã. Não temos muito problemas com drogas e Aids. Estuda muito. Há um milhão de estudantes universitários para uma população de 11,5 milhões. Mas é preciso trabalhar todo o tempo. A pressão ideológica contra Cuba é muito forte. Os Estados Unidos criaram a TV José Marti. Há cinco estações de rádio que fazem emissões dos EUA em castelhano. Alguns escutam. Foi o que aconteceu há alguns anos, quando pessoas saíram no Malecón com malas esperando que os viessem buscar. Foi por causa das rádios, que diziam que lanchas iriam buscá-las.

Como a sra. explica isso? As pessoas querem fugir de Cuba?
Isso era no período especial, quando a situação em Cuba era de se arrancar os cabelos, era desesperadora. Então pessoas que não têm os princípios necessários para aguentar a situação pensaram que poderiam viver melhor em outro lugar. Mas se deram conta de que foram manipulados e enganados. Não havia ninguém. E saíram quebrando. E o povo cubano saiu a controlá-los. Não houve um policial cubano. Foi uma coisa espetacular. Chamaram Fidel e Fidel foi. E o povo gritou: viva Fidel. E ele neutralizou a situação. Um ano depois, os jovens fizeram nesse mesmo dia uma marcha espetacular debaixo de uma chuva tropical.

Mas hoje isso poderia acontecer?
Perfeitamente. A última marcha de primeiro de maio foi espetacular, 5.000 jovens fecharam a marcha. E não se vai à marcha de forma obrigada, se faz de coração.

É muito pesado ser filha do Che?
Não. Minha mãe sempre nos ensinou que iríamos receber coisas que não havíamos ganhado. Que teríamos que receber: o nome de meu pai. Mas que deveríamos colocar os pés firmes sobre a terra e deixar passar o que não ganhamos como ser humano. É o que fazemos. Recebemos o nome de papai, mas deixamos passar tudo o que não é para nós. Por isso vivemos muito tranquilos.

A mentalidade de hoje é mais à direita do que era nos anos 60?
Não. Depende de como a esquerda se comporta num momento como este. Se viveres de costas para o teu povo, perdeste tudo. Mas, se tu estás ao lado dos necessitados e segue trabalhando ao lado de teu povo nos momentos mais difíceis, esse povo se dá conta que tu existe, e que tem algo diferente a oferecer. O mundo não tende a pensar como uma direita conservadora. Veja o movimento nas ruas da Espanha, os indignados.

Mas na Espanha a direita ganhou as eleições.
Mas esse movimento nas ruas não se via há muito tempo. E é contra o capital. Sabem bem o que estão exigindo: os bancos não podem seguir ganhando a custa do povo. Isso não é direita. É esquerda, é um despertar da consciência social.

Mas a direita ganhou.
Depende como são as eleições, partidos que levam listas. É um rolo. A suposta democracia nesse sentido se emaranha muito para as eleições. Se não tens capital, não entras nas eleições.

Há democracia em Cuba?
A democracia é o poder do povo. É o que diz a palavra demos: poder do povo. E um Estado de direitos para todos os cidadãos. Isso em Cuba existe sem nenhum tipo de dúvida. O que o povo diz é o que se faz. O povo sempre tem a última palavra.

Como está o caso dos cubanos presos nos EUA?
A mídia nunca fala. Falam dos presos em Cuba, das senhoras de branco, mas nunca falam dos cinco heróis cubanos presos nos EUA. Cuba é um país agredido pelo governo dos EUA, que mantém organizações terroristas de origem cubana no sul da florida. Chegam à costa cubana e metralham. Ferem crianças e idosos. Não dizem nada contra isso. Envenenaram a água de uma escola infantil. A mulher que quis incendiar a telefonia estava sendo paga por eles. Colocaram fogo em um edifício onde havia uma escola infantil. A dengue hemorrágica foi introduzida em Cuba através dessa gente de Miami. As últimas bombas em Havana, quem foi? Um turista salvadorenho pago diretamente por essa gente. Ele está preso em Cuba. Seu telefonema. Está tudo gravado. Nunca uma organização internacional protestou contra as ações terroristas contra Cuba. O governo dos EUA declarou que vai lutar contra o terrorismo em qualquer parte do mundo. Exceto em seu território nacional.

Esses cinco cubanos entraram nessas organizações porque é a única maneira que temos de evitar esses atos. Eles estavam dentro dessas organizações para dar informações dos atos terroristas contra o nosso povo. Foram detectados. Essas organizações terroristas do sul dos EUA enriqueceram com o tráfico de drogas, de armas e de seres humanos. O FBI nos procurou e demos informação de boa fé. E o que fez o FBI? Prendeu os nossos e deixou livres os terroristas. Estão presos há 13 anos. Dois deles nasceram nos EUA. Três eram cubanos com nomes falsos. Por isso podem ser penalizados. Mas a pena é de um a cinco anos de prisão, pelas leis dos EUA.

Há antecedentes. Outros foram condenados a oito anos. O FBI não demonstrou que eles tinham informação que comprometesse a segurança dos EUA. Nenhum pode ser condenado por espionagem, porque não há prova. Não era isso que estavam fazendo. Apesar disso, foram condenados a penas perpétuas. Um deles a duas vezes a pena perpétua! Com toda a mobilização internacional demonstramos que foram cometidas violações tremendas dentro das leis dos EUA. Comprovados agentes foram condenados a 10, 20 anos. E esses, que não tiveram nada comprovado, têm a pena perpétua! Como é possível? Conseguimos um segundo julgamento por causa da pressão internacional. Se os EUA usassem sua própria lei, esses homens seriam colocados em liberdade já. Porque não há lei que sustente essas prisões. E tem que a questão da imparcialidade. Como vais julgar cinco homens cubanos, que tenham se infiltrado nas organizações terroristas em Miami, em Miami? É impossível. Não funcionam as leis nos EUA. Por isso precisamos da solidariedade internacional nesse caso. Para pressioná-los a fazer justiça. Só queremos que os EUA façam justiça e façam valer suas próprias leis.

Com essas reformas, o Estado vai se reduzir em Cuba?
O Estado de Cuba é o povo, o poder do povo. Nos sentimos muito bem representados pelo nosso Estado.




Arqueólogos acham 'caixão' de família que julgou Jesus Cristo


Arqueólogos israelenses confirmaram a autenticidade de um ossuário (caixa usada para guardar ossos depois da fase inicial de sepultamento) pertencente à família do sacerdote que teria conduzido o julgamento de Jesus.

A peça, feita em pedra e decorada com motivos florais estilizados, data provavelmente do primeiro século da Era Cristã -tem, portanto, uns 2.000 anos.

Sebastian Scheiner/Associated Press

Funcionário da Autoridade Israelense de Antiguidades mostra inscrição em ossuário

A inscrição no ossuário, em aramaico ("primo" do hebraico, língua do cotidiano na região durante a época de Cristo), diz: "Miriam [Maria], filha de Yeshua [Jesus], filho de Caifás, sacerdote de Maazias de Beth Imri".

O nome "Caifás" é a pista crucial, afirmam os arqueólogos Boaz Zissu, da Universidade Bar-Ilan, e Yuval Goren, da Universidade de Tel-Aviv, que estudaram a peça.

Afinal, José Caifás é o nome do sumo sacerdote do Templo de Jerusalém que, segundo os Evangelhos, participou do interrogatório que levaria à morte de Jesus junto com seu sogro, Anás.

Não se sabe se Miriam seria neta do próprio Caifás bíblico ou de algum outro membro da família sacerdotal. O ossuário, no entanto, liga a parentela à casta de Maazias, um dos 24 grupos sacerdotais que serviam no Templo.

O governo israelense diz que o ossuário estava nas mãos de traficantes de antiguidades, impedindo o estudo de seu contexto original.

Encontro mundial de lideres Judeus em Jerusalém








Jerusalém sedia encontro dos principais líderes judeus do mundo.
Celebrando os 75 anos de existência do Congresso Judaico Mundial (CJM), dirigentes de todas as comunidades judaicas se reuniram em Jerusalém, Israel, para o Board of Governors, que acontece anualmente, e objetiva promover debates e análises sobre a situação do Oriente Médio e as repercussões na região e nas comunidades judaicas do mundo, entre os dias 19 e 21 de junho.

A reunião, liderada por Ronald Lauder-presidente do CJM, contou com a participação do presidente de Israel Shimon Peres, e dos ex-presidentes Alejandro Toledo e Luis Alberto Lacalle, respectivamente, do Peru e Uruguai, que discursaram na ocasião, e teve Chella Safra, como convidada especial. A delegação latino-americana foi chefiada por Jack Terpins-presidente do Congresso Judaico Latino-Americano (CJL), e teve integrantes também do Brasil, como Julia Guivant, presidente da Associação Israelita Catarinense, e Karen Sasson- diretora da Confederação Israelita do Brasil, que representaram a entidade e o País, durante o encontro.

Para Karen Sasson, da Conib, que participou pela primeira vez de uma reunião dessa amplitude, diz: “Foi uma experiência muito enriquecedora e gratificante, poder participar do encontro anual do CJM, em Jerusalém”. E completa: “Tive a oportunidade de conversar com representantes de vários países sobre a situação dos judeus nessas comunidades e falar sobre a nossa situação no Brasil , além de poder ouvir dos dirigentes do Estado de Israel e do board do CJM, o que tem feito ao longo deste ano. Ações como estas unem cada vez mais nossa comunidade, podendo praticar nossos costumes com liberdade.”

De acordo com Jack Terpins, essa foi mais uma oportunidade de congregar as principais lideranças do mundo judaico e de discutir questões afins, buscando sempre aprender uns com os outros, trocando experiências, visando tornar esse mundo melhor.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Paulo Afonso - Política








Paulo Afonso poderá ter 15 vagas de vereadores nas eleições 2012
Os atuais vereadores ainda divergem em suas posições. Alguns defendem a manutenção de 11, outros querem 13, há quem defenda o número de 17.

Redação
redacao@ozildoalves.com.br


Crédito: ASCOM/CMPA

A Câmara Municipal de Paulo Afonso (CMPA) deverá ter nas eleições de 2012, mais quatro cadeiras, passando de 11 para 15 vereadores.

O aumento do número de vereadores do município para 2013 se baseia na aprovação da Emenda Constitucional 58/2009, que determina que as cidades que possuam entre 80 e 120 mil habitantes (ver tabela abaixo) recebam a permissão para terem o número máximo de 17 vereadores, sendo assim, permitindo a criação de pelo menos mais seis vagas.

O aumento do número de parlamentares na Casa depende ainda da aprovação de um Projeto de Emenda à Lei Orgânica do Município de Paulo Afonso, que tem de ser votado ainda esse ano, e o prazo limite é até 04 de outubro, um ano antes das eleições do próximo ano.

Os atuais vereadores ainda divergem em suas posições. Alguns defendem a manutenção de 11, outros querem 13, há quem defenda o número de 17.

Para aprovação da emenda é necessário ao menos 2/3 da votação, ou 08 dos 11 votos possíveis. Portanto, os parlamentares têm que chegar a uma decisão de forma consensual. E pelas conversas nos corredores da câmara, não será nem 13, nem 17, o número mais comentado entre os atuais vereadores é mesmo de 15.

Caso a emenda seja aprovada, a mesa diretora do Legislativo Municipal enviará ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-BA), o número definido de vereadores, até o final da sessão legislativa do ano que anteceder o pleito.









Paulo Afonso poderá ter 15 vagas de vereadores nas eleições 2012
Os atuais vereadores ainda divergem em suas posições. Alguns defendem a manutenção de 11, outros querem 13, há quem defenda o número de 17.

Redação
redacao@ozildoalves.com.br


Crédito: ASCOM/CMPA

A Câmara Municipal de Paulo Afonso (CMPA) deverá ter nas eleições de 2012, mais quatro cadeiras, passando de 11 para 15 vereadores.

O aumento do número de vereadores do município para 2013 se baseia na aprovação da Emenda Constitucional 58/2009, que determina que as cidades que possuam entre 80 e 120 mil habitantes (ver tabela abaixo) recebam a permissão para terem o número máximo de 17 vereadores, sendo assim, permitindo a criação de pelo menos mais seis vagas.

O aumento do número de parlamentares na Casa depende ainda da aprovação de um Projeto de Emenda à Lei Orgânica do Município de Paulo Afonso, que tem de ser votado ainda esse ano, e o prazo limite é até 04 de outubro, um ano antes das eleições do próximo ano.

Os atuais vereadores ainda divergem em suas posições. Alguns defendem a manutenção de 11, outros querem 13, há quem defenda o número de 17.

Para aprovação da emenda é necessário ao menos 2/3 da votação, ou 08 dos 11 votos possíveis. Portanto, os parlamentares têm que chegar a uma decisão de forma consensual. E pelas conversas nos corredores da câmara, não será nem 13, nem 17, o número mais comentado entre os atuais vereadores é mesmo de 15.

Caso a emenda seja aprovada, a mesa diretora do Legislativo Municipal enviará ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-BA), o número definido de vereadores, até o final da sessão legislativa do ano que anteceder o pleito.

Dias Melhores - Jota Quest - DVD Ao Vivo

O que é ser Judeu?








Mesmo para aqueles que acham que judaísmo é apenas uma religião, o assunto provoca divergências. Não é por acaso que se conta a história do náufrago judeu que, após dez anos desaparecido, é encontrado numa ilha deserta por um navio que por lá passava.


O capitão encantou-se com as estratégias de sobrevivência dele, que incluíam a construção de uma casa bastante sólida, a confecção de redes de pesca e arpões e, para sua surpresa, duas sinagogas.


"Duas sinagogas", perguntou o capitão, "para que construir duas sinagogas se você está sozinho na ilha"? "Muito simples", respondeu o náufrago. "Naquela eu rezo todos os sábados. Já na outra eu não entro de jeito nenhum".


Assim são os judeus religiosos: uns, ortodoxos, outros conservadores, os terceiros liberais e ainda os reformistas, alem de várias outras denominações. A convivência nem sempre é pacífica, mas a ausência de um poder central e de uma função sagrada para os rabinos (diferente dos padres católicos, rabinos não falam em nome de Deus, não dão sacramentos, e qualquer ato religioso judaico pode ser realizado sem a sua presença) faz com que as diferentes comunidades contratem diferentes tipos de rabino. Há, inclusive, rabinos gays e "rabinas". Seu papel mais importante é adaptar leis milenares às práticas de cada grupo.


É por isso que uma comunidade tão pequena como a brasileira - menos de 0,1% da população do país - tem tantas sinagogas, organizações e porta-vozes. É muito cacique para pouco índio.


Mas limitar o judaísmo à identidade religiosa não responde todas as situações. É possível dizer que Philip Roth não seja um escritor judeu, que Woody Alen não é um cineasta judeu, que Marc Chagall não foi um pintor judeu, que Sigmund Freud não tenha sido judeu?


O judaísmo está muito presente nas obras de todos esses gênios. Uma parcela significativa da juventude israelense, como protesto pela inexistência do casamento civil no Estado de Israel, recusa-se a se casar na sinagoga e viaja até Chipre para oficializar sua união. Seriam esses jovens não judeus?


Não há uma única forma de identificar os judeus. Eles não permaneceram identificados como tais apesar da História, mas por causa da História. Não fossem necessários, teriam desaparecido como povo. O grande segredo da sua permanência é que não permaneceram, mudaram.


Nada mais distante de um judeu do gueto do que um outro que transcenda a idéia da nação. Quando, depois de muitos séculos, os judeus obteveram sua emancipação como cidadãos – isso tudo só após a Revolução Francesa – muitos saíram da cidadezinha para o mundo, tocando música, escrevendo, pintando, marcando, enfim, sua presença no mundo a partir do início do século XX.


Isso, contudo, só ocorre para uma pequena fração de judeus. A maioria continuava nas aldeias e nos bairros pobres das cidades da Europa Oriental. E é nesses ambientes que surge o nacionalismo judaico. Deve-se localizar as raízes da identidade nacional judaica no século XIX, na Europa Centro Oriental e atribuí-la a três fatores complementares: o esgotamento das formas de existência judaica nas aldeias (shtetl) e nos guetos das cidades da Polônia e região; a "primavera das nações", então em curso, que se apresentava como panacéia universal, remédio destinado a superar pobreza e perseguições (não foi, como sabemos); o profundo sentimento de identidade cultural.


A tese é de fácil demonstração. O próprio criador do assim chamado "sionismo político" Theodor Herzl, era um jornalista austríaco bastante incorporado à sociedade não judaica. Seu "retorno" ao judaísmo se deu após ele ter sido designado por seu jornal para cobrir o julgamento do Capitão Dreyfuss, em Paris, quando anti-semitas franceses acusaram o militar judeu de traição.


A França se dividiu e proporcionou importantes manifestações anti-judaicas. Herzl concluiu que, enquanto os judeus não tivessem uma nação própria, eles não teriam dignidade e estariam sujeitos a todo tipo de perseguições. Escreveu um livro "O Estado Judeu" que teve grande impacto, mas não foi unanimidade entre os judeus.


Uns porque esperavam a manifestação do Messias, que era a quem, segundo eles, caberia determinar o "retorno" à Terra Santa; outros porque se sentiam apenas ingleses ou franceses de fé "mosaica" e não queriam ser percebidos como alguém com dupla lealdade (ainda não estávamos em nosso atual estágio de várias identidades nacionais sobrepostas e aceitas); outros ainda porque apostavam na solidariedade entre os oprimidos de todos os países e crenças, algo que só poderia ocorrer por ocasião de uma revolução socialista de caráter internacional, e não "por meio de soluções parciais e nacionais".


Embora a colonização moderna da Palestina pelos judeus tenha se iniciado no final do século XIX e tenha ganhado força no início do XX, com a fundação das primeiras colônias coletivas de caráter comunista (kibutz) e cooperativas de trabalhadores rurais (moshav), ela não era ainda muito significativa em termos quantitativos até a década de 1930.


A ascensão de Hitler ao poder, a "solução final", concebida e executada pelos nazistas (com o assassinato sistemático da maioria da população judaica européia) fez com que grande parte dos judeus não percebessem outra solução que não a "reconstrução" de um estado que pudesse funcionar como refúgio a todos os judeus do mundo que se sentissem perseguidos. Essa é a história de Israel.


Isso faz com que todos os judeus sejam israelenses e que todos os israelenses sejam judeus? Claro que não. Em Israel existe um importante número de israelenses árabes, muçulmanos ou cristãos. E bem menos da metade da população judaica do mundo vivem lá – qualquer que seja o critério que utilizemos para definir esta identidade.


Há, sempre, quem olhe o judeu de forma preconceituosa, francamente negativa ou falsamente positiva, mas nem por isso menos discriminatória. Há quem diga que existe um judaísmo gastronômico, outro ufanista (esgrimindo com violinistas, escritores e cientistas judeus que ganharam o prêmio Nobel).


Há mesmo quem ainda acredite que os judeus sejam o povo eleito. Tenho, contudo, a convicção de que sua experiência como discriminados habilitou os judeus a lutar contra qualquer discriminação, e o período da vida na aldeia isolada ou nos guetos desenvolveu em muitos judeus o ódio ao etnocentrismo, ao horizonte limitado.


Há um judaísmo universal e ele pode ser praticado.


Jaime Pinsky, paulista de Sorocaba, é doutor e livre docente em história pela USP e professor titular pela Unicamp, universidades em que trabalhou. É autor e/ou organizador de mais de 20 livros, entre os quais Origens do Nacionalismo Judaico e História da Cidadania. Atualmente é diretor editorial da Editora Contexto.

sábado, 18 de junho de 2011

Wood Allen - Ator e cineasta - Uma entrevista







"Falta-lhe coragem para sair de casamentos fracassados"

Um encontro com Woody Allen prova que os homens inseguros, neuróticos e pessimistas de seus filmes são mesmo versões de si mesmo. Mal o cineasta entra na suíte do Hotel Martinez, um cinco-estrelas às margens do Mar Mediterrâneo, em Cannes, já começa a reclamar. Primeiro, do calor que ele diz não suportar – e o deixa apreensivo em relação a filmar no Brasil. O rei da autoparódia também se mostra insatisfeito com o chuveiro do hotel, com as viagens e, claro, com a condição humana. “Há coisa pior do que já nascer condenado à morte?’’, pergunta o diretor de 75 anos. É justamente para se esquecer de tudo isso que Allen roda um filme por ano. São quase 50 títulos no currículo, completado agora com mais um, a comédia “Meia-Noite em Paris’’, em cartaz no País, no qual o seu alter ego é um roteirista em crise. Enquanto a noiva do escritor só pensa em futilidades, ele se distrai voltando no tempo, artifício que o permite conviver com intelectuais e artistas da Paris dos anos 1920. Gente como Ernest Hemingway, Salvador Dalí, Gertrude Stein e o casal Scott e Zelda Fitzgerald. “A magia me ajuda a não cair em depressão’’, diz o cineasta.


"Gosto mesmo é de dias cinzentos. Diversão para mim
é assistir a um jogo pela televisão e tomar cerveja"


"Perguntei a Carla Bruni se ela nunca tinha pensado em fazer um filme.
Ela disse que gostaria, que seria divertido mostrar um dia aos netos"



Istoé -

O sr. vai mesmo fazer um filme no Rio de Janeiro?


Woody Allen - Estamos conversando com várias pessoas no Brasil sobre a possibilidade de rodar no Rio. Não há nada acertado ainda, mas estamos pensando seriamente no assunto. A minha irmã (Letty Aronson), que produz os meus filmes, já viajou ao Brasil e passeou pelo Rio para sentir a cidade.
Istoé -

Acha que gostará do Brasil?


Woody Allen - Como nunca visitei o País, é difícil dizer. Teria de viajar primeiro ao Rio para ver como me sinto. Para ser sincero, nem sei se gosto muito da ideia de filmar lá.
Istoé -

Por quê?


Woody Allen - Como não suporto calor, será complicado me acostumar ao clima de um país tropical. Cannes na primavera já é quente demais. O que eu gosto mesmo é de dia cinzento. Não foi por acaso que filmei “Meia-Noite em Paris’’ em dias de chuva. Se o projeto do Rio vingar, vou passar uma temporada na cidade em busca de inspiração. Quero escrever um roteiro que capture um pouco a alma do Rio, assim como fiz agora com Paris e como vou fazer com Roma no meu próximo filme (“Bop Decameron’’, cujas filmagens se iniciam em julho).
Istoé -

O sr. já citou o Brasil em alguns de seus filmes.


Woody Allen - Você se refere a “Dirigindo no Escuro”? Quando escrevia aquele roteiro, queria dar um desfecho bacana a uma personagem feminina que sumiria da história. E a solução foi casá-la, apenas numa citação, com um brasileiro rico e bonito. Fiz isso porque as mulheres americanas gostam de homens brasileiros.
Istoé -

Como surgiu a ideia de escalar Carla Bruni para "Meia-Noite em Paris"?


Woody Allen - Num brunch em que eu e minha esposa conhecemos Carla e Sarkozy, há quase dois anos. Como ela me impressionou pela beleza e pelo charme, perguntei se nunca tinha pensado em fazer um filme. Nem que fosse uma participação. E ela disse que gostaria, que um dia seria divertido mostrar um filme aos seus netos.
Istoé -

O presidente Nicolas Sarkozy visitou o set?


Woody Allen - Sim. E ele achou que Carla estava ótima, que tinha talento natural como atriz. Ela fez tudo direitinho mesmo, tornando toda a experiência muito agradável.
Istoé -

Como mantém a energia para rodar um filme atrás do outro?


Woody Allen - Dou a impressão de estar sempre ocupado, mas não estou. No período de um ano, tenho tempo suficiente para fazer um filme, o que inclui escrever, escolher os atores, filmar e editar. E ainda me sobra tempo para o resto.
Istoé -

O que é o resto?


Woody Allen - Gosto de tocar jazz com a minha banda, sair em turnê, brincar com as minhas filhas, levá-las à escola, fazer os meus exercícios físicos, ver jogos de basquete, ver filmes e fazer caminhadas. A verdade é que não trabalho muito duro.
Istoé -

Mas pela sua idade...


Woody Allen - Já poderia estar aposentado, é verdade. Mas prefiro trabalhar para não pensar em bobagem. Filmar é uma terapia para mim. Do contrário, enlouqueceria. Ainda assim, trabalho muito menos que um professor, um médico ou um taxista. Não tenho de estar num lugar específico, não preciso trabalhar obrigatoriamente todos os dias e não tenho horário para cumprir. Quando penso nisso, acho que levo uma vida até preguiçosa.
Istoé -

Qual é a sua rotina?


Woody Allen - Gosto de acordar bem cedo, às 6h30 da manhã, para levar as crianças à escola, voltar para casa e já começar a escrever. Ao meio-dia, já terminei, o que me sobra tempo para tocar a minha clarineta e ainda ir a algum museu com a minha mulher (Soon-Yi Previn).
Istoé -

Como se sente ao quebrar a rotina com viagens para festivais e filmagens?


Woody Allen - Péssimo! O problema é que a minha família adora as viagens. Então eu fico dividido. Eles adoram conhecer novos lugares. Já que eu não aproveito muito, pelo menos eles aproveitam. Para eles, isso é sinônimo de férias. Eles adoram passar meses num hotel bacana.
Istoé -

O sr. não?


Woody Allen - De jeito nenhum. Eu sempre prefiro estar em Nova York. Na minha casa, tenho tudo o que eu preciso. E tudo está no lugar certo.
Istoé -

O quê, por exemplo?


Woody Allen - Tenho o ar-condicionado já regulado na temperatura que eu gosto. O chuveiro também é um problema no hotel.
Istoé -

Como o chuveiro pode ser um problema num hotel cinco-estrelas?



Woody Allen - Não importa quantas estrelas tenha o hotel, sempre preciso mexer no chuveiro para ele sair com a quantidade de água que eu gosto e a água cair na direção que eu quero.
Istoé -

Do que mais sente falta quando não está em Nova York?


Woody Allen - Fico triste por perder os jogos da temporada de beisebol, no verão. Também sinto falta da minha clarineta. Outra vantagem de estar em casa é que eu sempre sei onde estão todos os meus remédios. Num hotel, nunca sei direito onde os coloquei.
Istoé -

O sr. é hipocondríaco?



Woody Allen - Não sou. Mas admito sempre imaginar o pior quando se trata de uma doença. Sou assim com tudo. Quando viajo, também penso em tudo o que pode dar errado. E penso muito na morte também. Mais do que deveria.
Istoé -

Em “Meia-Noite em Paris”, o personagem de Ernest Hemingway diz que o verdadeiro amor faz o homem esquecer a morte. Não concorda?



Woody Allen - Não. Eu me identifico mais com o pensamento de Edith Wharton, que dizia que a morte é como o som de um trovão distante num dia de piquenique. É assim que eu me sinto.
Istoé -

Mesmo nos melhores momentos?


Woody Allen - Sim. A morte está sempre lá, mesmo quando você está muito feliz. Seja porque sua filha vai se casar, ou você ganhou na loteria ou conheceu a pessoa dos seus sonhos. Ela não desaparece.

Istoé -

Hemingway também diz no filme que só quem tem medo da morte consegue escrever algo brilhante...



Woody Allen - Aqui eu concordo. Mas não me encaixo nessa teoria. A minha covardia e a minha timidez sempre me atrapalharam muito. Penso que a minha vida seria melhor e os meus filmes seriam melhores se eu fosse mais corajoso e menos inseguro.

Istoé -

Como o protagonista do filme, o sr. já manteve um casamento com a pessoa errada só para não ficar sozinho?



Woody Allen - Eu e uma parcela enorme da população. Acho que está na natureza humana manter relacionamentos fracassados por muitos anos. Pela minha experiência de vida, muitas pessoas se contentam com um casamento feliz por apenas 20% do tempo e infeliz no tempo que sobra.

Istoé -

Ser um pouquinho feliz é melhor do que nada?



Woody Allen - É por aí. Se sempre fosse possível trocar um relacionamento por outro, como num passe de mágica, aposto que a maioria das pessoas o faria sem pestanejar. O problema é que é preciso passar pelo rompimento, pela solidão e ainda esperar um tempo até conhecer alguém novo.

Istoé -

Está satisfeito com o rumo que a sua vida pessoal tomou?



Woody Allen - Sim. Hoje sou um típico pai de família. Eu não serviria para a vida boêmia. Não conseguiria passar a noite inteira bebendo num bar, na companhia de amigos intelectuais e de mulheres bonitas. Sou muito classe média nesse sentido. Vivo rodeado de corretores da bolsa de valores e de banqueiros, que são meus vizinhos. Diversão para mim é colocar uma camiseta e assistir a um jogo pela televisão, bebendo cerveja.

Istoé -

É verdade que sua grande frustração é não ter seguido a carreira musical?



Woody Allen - Sim, trocaria tudo por um talento musical. Mas nunca dei para a coisa. Queria ter sido um grande músico, como Louis Armstrong, que sempre admirei profundamente.

Istoé -

Chegou a conhecê-lo?


Woody Allen - Tive a oportunidade, mas preferi não.

Istoé -

Por quê?



Woody Allen - Porque foi uma decepção conhecer outro ídolo, Groucho Marx. Sempre o idolatrei pelo seu humor. O problema é que ninguém corresponde às nossas expectativas. Quando nós dois jantamos juntos, por mais que eu não parasse de repetir para mim mesmo “você está jantando com Groucho Marx’’, ele parecia um tio judeu como outro qualquer.
Istoé -

Ele pareceu comum demais?



Woody Allen - Groucho simplesmente foi humano demais. Ele me lembrou várias pessoas da minha família. Toda família tem um tio que gosta de contar piadas, não tem? Algumas são engraçadas, outras não. E isso não me agradou. Preferia o Groucho que eu tinha na minha cabeça. Para piorar, ele não estava usando o bigode da sua famosa caracterização.

Istoé -

O sr. é muito nostálgico?



Woody Allen - A nostalgia é algo muito tentador e prazeroso para mim. O problema é que tenho a tendência de só lembrar o que era bom. Quando penso na minha infância, adoro recordar os meus sete anos. Costumava tomar sorvete com uma prima minha, muito bonita. Tudo parecia tão lindo. Mas, quando penso mais profundamente, foi uma época terrível. Eu não gostava da escola e ainda apanhava dos pais. Sem falar na Segunda Guerra Mundial.

Istoé -

O que ainda quer da vida?



Woody Allen - O que quero, obviamente, não é possível. Queria que o homem nascesse já sabendo o motivo. E queria que ele não envelhecesse após um certo período. Não queria que ninguém ficasse doente ou morresse. A condição humana é trágica demais para o meu gosto.

..
CompartilharImprimirCompartilharImprimir
Email TwitterDel.icio.usDiggFacebookStumbleUpon



Últimas Entrevistas 10.Jun.2011 04.Jun.2011 .
siga frases
"Acho que me tornar uma mulher adulta foi mais prazeroso do que difícil"

Leandra Leal, atriz
"Acho que agora vou ter de usar tranças"
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da secretaria-geral da Casa Civil, em reunião com as recém-empossadas Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti
"É cedo para renovar com Michael Schumacher"
Ross Brawn, chefe de equipe da Mercedes na Fórmula 1, ao afirmar que ainda não sabe se o piloto seguirá na escuderia depois de 2012
"Cuide bem dos meus peixinhos"
Ideli Salvatti, ao assumir a Secretaria de Relações Institucionais, no lugar do ministro Luiz Sérgio, que foi para o Ministério da Pesca
"Acho que nós não podemos fazer WikiLeaks da história do Brasil"
José Sarney, presidente do Senado, que defende o sigilo eterno de alguns documentos oficiais . ..

Zé Ramalho - Bate na Porta do cé, versão de Bob Dylan

Bob Dylan - Forever young (with lyrics on screen)

domingo, 12 de junho de 2011

Fernando Pessoa, um poeta singular






Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue.

Fernando Pessoa