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domingo, 18 de setembro de 2011

DALAI LAMA

DALAI LAMA

Ele tem 2.366.281 seguidores no Twitter, mas não segue ninguém. São 1.966.379 os que o curtem no Facebook, contra três que “descurtem”. Ele diz que é um ser humano como qualquer outro, mas os números acima desmentem. Segundo ele, as diferenças entre os homens só existem em nível secundário. Os problemas da humanidade surgem porque nós enfatizamos este segundo nível, ou seja, nosso país, cultura, crença, profissão. Dalai Lama, nascido Tenzin Gyatso, tem amigos cristãos, muçulmanos, judeus e hinduístas, e acredita que todas as religiões levam a mesma mensagem de amor e compaixão. Ele falou nesta sexta-feira a uma sala não lotada de jornalistas entusiasmados no World Trade Center, em São Paulo.

O líder do Tibet tem 76 anos e o bom humor de uma criança dentro de um parque de diversões. Disse que, como monge budista, é “um péssimo praticante”, ao responder sobre como o homem deve viver a espiritualidade. Não foram poucas as vezes que fez rir a plateia. Para ele, rezar e deixar a experiência trancada na sala de oração não significa nada. A religião é como a refeição, que alimenta o corpo para fornecer energia. Da mesma forma, as práticas religiosas devem alimentar a alma e conduzir as atitudes do homem diariamente. A consciência não deve ser guiada por sentimentos como medo, raiva e apego, porque são eles que valorizam demais o tal nível secundário, provocando conflitos.

Eu já tinha ouvido isso numa palestra do monge budista Bhante Yogavacara Rahula sobre meditação. Mas essa mensagem parece ainda mais bonita saindo da boca do Dalai Lama. Ele é um pregador nato, um piadista sagaz e sabe como conduzir seu discurso – e, para o bem de todos, é um discurso de paz. A coletiva de imprensa deveria durar 45 minutos, e ele responderia nove perguntas que abordassem temas pré-definidos. Quando o relógio bateu nos 45 minutos, após cinco questões, ele se despediu. “É hora de ir embora”, disse, olhando para o relógio no pulso. Ficou mais um pouco para cumprimentar os jornalistas. Desceu até a plateia e abraçou uma mulher, que se debulhou em lágrimas, de tanta emoção.


Dalai Lama desce para cumprimentar os jornalistas (Foto: Laura Lopes)Confesso que pensei que fosse levitar quando ele aparecesse na sala. Para a minha surpresa, não aconteceu. Dalai Lama é muito mais gente de carne e osso do que se pode pensar. E é por isso que ele consegue emocionar e atingir tantas pessoas. Com dedo em riste, e o olhar fixo à primeira fila, disse aos jornalistas que devemos ter um nariz tão longo quanto a tromba de um elefante, para poder farejar todos os ângulos de uma notícia. Aceitar o que as pessoas nos mostram pela frente e investigar o que está por trás delas. Depois do sermão inicial, e falar que não estávamos tão interessados em suas palavras sobre igualdade, disciplina, amor e respeito, disse que aquilo era tudo. “First question!” (primeira pergunta), continuou, como se estivesse no balcão de atendimento do McDonalds. “Próximo pedido”, “Next question”... Ele não queria, com isso, menosprezar nossas perguntas. Óbvio. Mas agilizar o processo com uma dose de humor. E conseguiu, porque todos riram.

O décimo quarto Dalai Lama não sabe pronunciar o nome da cidade do Rio de Janeiro direito, mas é carismático até na hora em que se enrola para confessar isso. Enquanto suas palavras eram traduzidas para o português, fez pose sorrindo, tirou os óculos e chegou a afastar o microfone do vizinho para facilitar o trabalho dos fotógrafos – além de posar ao lado de um embrulho misterioso que estava sobre a mesa. A certa hora, permaneceu alguns segundos olhando para o banner de trás, que anunciava sua quarta visita ao país. E ria, sempre, inclusive quando anunciou seu último livro, ainda sem tradução para o português, sobre os traços comuns entre as religiões. Ao mostrar o livro para a plateia, gargalhou. Parecia merchandising em talk show.

O líder tibetano chegou na quinta-feira (15) ao Brasil, dia em que palestrou para executivos. As entradas, que não se esgotaram, custavam 500 reais. Nesta sexta, o simpósio que acabou às 15h30 valia de R$ 120 a 240 – com duas aparições da Santidade. No sábado, ele falará a 6 mil pessoas no Anhembi. A entrada é gratuita, mas as inscrições se encerraram faz tempo. No domingo, último dia em solo brasileiro, ele dará uma palestra sobre as práticas tibetanas. Custou de R$ 25 a R$ 50 a quem conseguiu comprar antes de acabar.

ENERGIA SOLAR









A tórrida cidade de Coremas, no sertão da Paraíba, poderá se tornar em 2012 um nome tão familiar aos brasileiros quanto Itaipu ou Angra – bem, talvez não tão famoso, mas certamente mais admirado pelos ambientalistas. O município de 15 mil habitantes, localizado num ponto especialmente quente do sertão nordestino, foi escolhido por investidores como local de construção da primeira grande usina solar do país. “Grande”, entenda-se, para os padrões ainda modestos do universo da energia solar: o projeto prevê capacidade inicial de 50 megawatts, suficiente para abastecer 90 mil residências.

O complexo nuclear de Angra tem capacidade quase 70 vezes maior. Mesmo assim, a obra em Coremas será um marco, por colocar (ainda timidamente) a energia solar no mapa da geração em grande escala no Brasil. A princípio, a usina poderá participar, até abril, dos leilões periódicos de energia que garantem o suprimento do país para o resto da década. As obras deverão começar no próximo ano e terminar até 2015.

Até hoje, o uso da luz solar para produzir eletricidade recebe mais elogios que investimentos. Trata-se de uma fonte inesgotável e limpa, que não emite resíduos, não exige desmatamento, alagamentos ou desvio de curso de rios, nem assusta com a possibilidade de vazamento de radiação. Com tantos predicados, ela nem aparece nos gráficos que mostram a contribuição de cada fonte de energia nos totais de geração global ou brasileira. A situação tende a mudar um pouco até 2020, quando a luz do sol deverá responder por 51 terawatts de capacidade geradora no mundo inteiro – um décimo da capacidade das usinas eólicas (que produzem energia a partir do vento) e 0,2% do total global, segundo previsões do Ministério de Minas e Energia. A energia solar passaria então a ser um risquinho visível nos gráficos. “A viabilidade econômica ainda é um problema, mas seria bom o Brasil contar mais com essa fonte. A tecnologia a ser usada funciona”, diz o físico José Goldemberg, ex-secretário nacional de Ciência e Tecnologia e especialista em energia.

A tecnologia prevista para Coremas é bem diferente dos tradicionais painéis fotovoltaicos, as chapas que transformam a luz solar em corrente elétrica e podem ser vistas em telhados, postes, pequenos dispositivos eletrônicos e também na Usina de Tauá, no Ceará – atualmente, a maior solar do Brasil, obra do empresário Eike Batista, com capacidade de 1 megawatt. Coremas se baseia em outro processo, de concentração de energia, também chamado heliotérmico: espelhos côncavos concentram os raios solares em um tubo, por onde passa um fluido especial, de tecnologia israelense. O fluido, aquecido a centenas de graus, corre pela tubulação até uma caldeira, transforma a água em vapor e o vapor move as turbinas. Há pelo menos dez usinas similares em construção ao redor do mundo. A maior obra já em andamento, três vezes maior que a brasileira, fica em Lebrija, na Espanha. O maior projeto em estudo, oito vezes maior que o de Coremas, prevê uma usina no Deserto da Califórnia, nos Estados Unidos.

A obra tem sentido do ponto de vista técnico, por produzir energia limpa numa área infértil, que dificilmente seria usada para outro fim econômico, e onde é relativamente fácil administrar o risco e o impacto ambiental – situação bem diferente do que ocorre com o aproveitamento de rios para geração hidrelétrica e com os projetos de geração nuclear. Os empresários responsáveis pelo projeto, todos do setor financeiro, trataram de aumentar seu apelo ambiental. Querem garantir a produção de energia à noite com a queima de restos de coco, o que pode diminuir o volume desse resíduo na região (a produção anual na região é de 300.000 toneladas). Além disso, os painéis concentradores de energia seriam colocados a 3 metros do chão, para formar uma estufa sombreada de 60 hectares. “Dá para plantar com alta produtividade ali, isso já foi comprovado nos Estados Unidos. Seria um benefício adicional para a região”, diz Sergio Reinas, um dos sócios da Rio Alto Energia, dona do projeto de Coremas.

As ideias são boas, mas ainda não garantem a viabilidade do projeto, com custo estimado em R$ 325 milhões (R$ 15 milhões já investidos pelos sócios) e à espera de financiamento. “A energia solar não vingou até hoje no Brasil porque custa muito e a hidrelétrica é barata, tem saído por R$ 80 por megawatt-hora”, diz o economista Alexandre Rands, professor da Universidade Federal de Pernambuco e especialista em economia do Nordeste. “Para ser lucrativa, uma empresa de energia solar precisaria oferecer energia a uns R$ 140 e manter baixos os custos de manutenção.” O megawatt-hora a partir da luz solar ainda custa pelo menos R$ 200, o dobro do preço cobrado pelas fontes eólicas, a grande estrela do momento na geração limpa. “Mas é importante lembrar que a energia eólica custava R$ 150 há dois anos. Quando o negócio começa a se tornar atraente, mais gente entra e o preço cai”, diz Álvaro Augusto Vidigal, outro sócio da Rio Alto. A população de Coremas já comemorou a venda de terrenos. Com um pouco de sorte, o resto do Brasil também poderá celebrar a novidade.


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Leia mais sobre a tecnologia da concentração solar

sábado, 10 de setembro de 2011

Ouro do céu

Ouro e platina foram trazidos à Terra por meteoritos, afirmam cientistas Análise de rochas fornece evidências de que chuva extraterrestre foi responsável pelo acúmulo de metais preciosos Análise de rochas sugere que bombardeio de meteoritos é responsável pelas reservas de metais preciosos na Terra (Thinkstock) Análises de antigas rochas forneceram evidências de que as reservas terrestres de metais preciosos, como o ouro e a platina, vieram do espaço. Segundo pesquisadores da Universidade de Bristol, na Inglaterra, responsáveis pelo trabalho, esses materiais são resultado de um bombardeio de meteoritos que começou a atingir a Terra mais de 200 milhões de anos depois de sua formação. Um artigo sobre o estudo foi publicado no periódico científico Nature. Sabe-se que o núcleo terrestre foi formado por ferro fundido, capaz de arrastar com ele metais preciosos. Assim, as camadas mais externas deveriam estar hoje livres desses materiais. Mas não é isso o que ocorre: o manto, camada abaixo da superfície, exibe abundantes quantidades de ouro, por exemplo. A única explicação para isso seria uma posterior chuva de meteoritos. Com o objetivo de testar a ideia, os pesquisadores analisaram rochas de quase quatro bilhões de anos, coletadas na Groenlândia. Ao comparar a composição do tungstênio em antigas rochas com a de rochas modernas, a equipe encontrou uma assinatura química que distinguia os materiais. Segundo os cientistas, isso embasaria a tese de que a Terra foi atingida por uma chuva de meteoros que durou centenas de milhões de anos. "Nosso trabalho mostra que a maioria dos metais preciosos nos quais as nossas economias e muitos processos industriais fundamentais se baseiam foi adicionada ao nosso planeta por sorte, quando a Terra foi atingida por cerca de 20 bilhões de toneladas de material espacial", afirma Matthias Willbold, um dos pesquisadores responsáveis pelo trabalho.

domingo, 4 de setembro de 2011

Fernando Henrique Cardozo

Crônica de um tempo difícil 04 de setembro de 2011 | 0h 00 Notícia A+ A- Assine a Newsletter Fernando Henrique Cardoso - O Estado de S.Paulo Às vezes me dá vontade de ser mais cronista do que articulista. Explico-me: espera-se de um articulista que argumente lógica e concatenadamente sobre um assunto qualquer. Já o cronista pode divagar. Estou ficando cansado de argumentar, e com mais vontade de discorrer sem pretensões do que ter de demonstrar a lógica de meus argumentos. Começo por fazer uma confissão. Na quinta-feira, dia 1.º de setembro, depois de um prazeroso almoço com bons amigos que ainda se dão ao trabalho de continuar a celebrar meus já batidos 80 anos, cheguei ao instituto às 5 e meia da tarde. Recebi um antigo colaborador e amigo que não via há muito tempo (por sinal, hoje general do Exército) e, ainda, me dispus a mostrar-lhe a exposição sobre o Brasil de antes e depois do Plano Real que o acervo do iFHC preparou para servir às novas gerações e, quem sabe, despertar o interesse de algum pesquisador. Às 7 da noite, terminada a visita à exposição, recebi um recado de uma das minhas assessoras: não me esquecer do artigo para o primeiro domingo de setembro! Mais grave ainda: devia sair de casa para o aeroporto na sexta-feira às 7 e meia da manhã para ir a Montevidéu, a convite de meu amigo o ex-presidente Julio Sanguinetti. Que fazer? Tinha em mente dois temas para este domingo. Algumas reflexões sobre a crise da economia dos países ricos e a nossa experiência em lidar com a questão ou, algo mais quente, os limites da "faxina" da presidente Dilma Rousseff e minhas declarações a esse respeito. Temas sérios. Confesso, faltou-me energia para discutir a fundo essas questões em duas horas - que era o que me restava -, embora não me faltasse apetite para dar alguns palpites como cronista (sem querer ofender os brios dos verdadeiros cronistas). Vamos lá. Primeiro, a crise financeira deles e o nosso "legado", palavra pretensiosa e tão mistificadora como a expressão que andou na moda, herança maldita. No caso dos países ricos, é indiscutível, o que causou a crise foi mais o desregramento do sistema financeiro e a crença cega nas autocorreções do mercado do que a gastança governamental, a crise fiscal, embora esta exista também. Em nosso caso, foram as agruras nas contas externas e, sobretudo, as especulações contra a moeda nacional - o "contágio" -, acrescidas, também, de fragilidades fiscais. Lá, como aqui, com as mesmas razões ou sem razões aparentes, as agências avaliadoras de risco desempenharam papel importante para desencadear dúvidas sobre a liquidez e a solvência. Mas param por aí as similitudes. Nem tínhamos a possibilidade de picotar e transformar as hipotecas em "derivativos", pois o crédito imobiliário era pequeno, nem de empurrar para o Banco Central o desastre financeiro dos bancos e quejandos. Entre nós, também houve alguma "socialização das perdas", isto é, o Tesouro (eu, você e todos os contribuintes) acabou pagando algo dos desatinos dos banqueiros e especuladores. Mas em pequena proporção: o grosso foi pago pelos próprios banqueiros audaciosos. Tiveram seus bens indisponíveis e perderam seus bancos. Isso foi o Proer. E os bancos públicos estaduais, quando governadores tomavam dinheiro emprestado e não pagavam, foram privatizados ou fechados. Nesses casos também houve algum aumento da dívida pública federal, justificável para barrar de vez a possibilidade de desregramentos futuros. Isso foi o Proes. Nos Estados Unidos e na Europa, o que vemos? Inundação de dinheiro público via bancos centrais para salvar o sistema financeiro, sem nenhuma penalização dos responsáveis e, ainda por cima, cortes drásticos nos orçamentos, sem aumento de impostos, fazendo com que os menos aquinhoados paguem os desvarios dos mais ricos! Pior: tudo isso sem que a economia retome o seu dinamismo. Na Europa, um empurra-empurra para ver se algum país paga pelos empréstimos que seus bancos fizeram aos países ora em penúria ou se o Banco Central Europeu - quer dizer, todos - vai pagar. Sempre, além disso, há cortes drásticos no orçamento para pôr as contas fiscais em ordem. Resultado: poucas chances de crescimento nos próximos anos. Dá para entender? Quando daqui gritávamos contra a desregulação - cheguei a apoiar a Taxa Tobin, um imposto sobre as transações financeiras internacionais, que quase todos os economistas condenam, para criar um fundo de solvência dos países endividados -, vinham-nos com a mesma receita: aperto fiscal e nada mais, salvo um ou outro empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) quando a situação já era desesperadora. Quem com ferro fere com ferro será ferido. A confusão, agora, é "deles" e, como é "deles" e não há mais eles sem nós, barbas de molho, porque a recessão em marcha acabará por nos atingir. Enquanto isso, os sonhos de um G-20 ativo tratando de regular o mercado financeiro morre na praia. Não aprenderam nossa lição: além do apregoado aperto fiscal, seguimos as regras da Basileia, isto é, nosso Banco Central pôs freio à especulação e à irresponsabilidade no sistema financeiro, desde os tempos do Proer e do Proes. E não descuidamos de ter um Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ativo nem dos programas de transferência de renda para os mais pobres e de aumentos reais do salário mínimo desde 1994 até hoje. Em contrapartida, deveríamos aprender com os países ricos que com corrupção pública não se deve brincar. Na Alemanha, o grande consolidador da União Europeia, Helmut Kohl, pagou alto preço por não querer dizer quem o ajudou em eleições e, recentemente, um importante ministro foi demitido por denúncia de plágio acadêmico. Assim, agora que se começou a falar em faxina, creio que devemos apoiar as iniciativas nesse sentido - desde uma CPI até os atos da presidente, estimulando-a a ir mais longe -, sem deixar que o governo ou um partido, mesmo que de oposição, se apodere da bandeira da moralização. Isso seria logo visto como manobra política e perderia apoios na sociedade, que se cansou de tanta impunidade. Daí a pensar, como alguns pensam, que estamos querendo apoiar governos ou ficar bem na foto, é desconhecimento das reais motivações ou insensatez de quem não vê mais longe: as forças da corrupção estão mais enraizadas no poder do que parece. Sem tática, persistência e visão de futuro, será difícil barrá-las. SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA