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domingo, 24 de agosto de 2014




Através da arte, Carybé, Caymmi, Verger e Jorge Amado traduziram a Bahia; confira coleção lançada pelo CORREIO

A cultura negra, o candomblé, as festas populares e o mar são algumas das paixões compartilhadas pelos quatro amigos

Roberto Midlej (roberto.midlej@redebahia.com.br)
24/08/2014 08:17:00
Atualizado em 24/08/2014 08:30:55


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O estado de espírito dos baianos, a maneira como  se relacionam uns com os outros, o gosto pelas celebrações, enfim, seu ritmo de vida... Todos esses elementos, que podem ser considerados marcas da baianidade, estão presentes nas criações de Carybé (1911- 1997), artista plástico cuja obra o leitor do CORREIO pode conhecer melhor na coleção As Sete Portas da Bahia, encartada ao jornal às quintas e domingos. Hoje, o segundo fascículo da série retrata A Festa do Bomfim.



Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé divulgaram, em suas criações, as marcas da baianidade para o mundo. O candomblé era um dos interesses em comum dos três amigos 
(Foto: Flávio Ribeiro/Arquivo Correio)

Mas Carybé não foi o único artista fundamental na afirmação dessa identidade baiana. Outros três criadores, não por acaso amigos dele, também contribuíram para afirmá-la: Jorge Amado (1912- 2001), Dorival Caymmi (1914- 2008) e Pierre Verger (1902- 1996). Todos foram porta-vozes dessa tal baianidade.

Identidade 
“Não são os artistas sozinhos que inventam a identidade de um lugar, mas eles contribuem para formar o imaginário”, defende a jornalista baiana Joselia Aguiar, 39, doutoranda em história cultural e autora de uma dissertação de mestrado que trata da Bahia de Pierre Verger.

Mas Joselia reconhece a importância desse quarteto e destaca que artistas sempre contribuem para construir uma imagem de uma época: “Como pensar na Paris do fim do século XIX sem os impressionistas?”, compara.

Autora do livro 
A Invenção da Baianidade, a jornalista Agnes Mariano, 42, defende que esses artistas foram importantes na afirmação da cultura negra, muito presente na história da Bahia. Ela ressalta que, antes de a produção artística deles se tornar conhecida, a cultura negra era desprezada e perseguida e não havia o “orgulho de ser negro”. 

Agnes ressalta algumas marcas dos trabalhos de Carybé que reforçam sua ideia: “Ele não se cansava de pintar a força e a beleza de mulheres negras. Dar esse destaque às negras é uma forma de transgressão em um país onde as mulheres negras e pardas ainda são a parcela da população com menor remuneração”.

Um outro elemento que compõe a cultura negra e que estava muito presente na obra desses artistas era o candomblé, simbolizado principalmente pelos orixás. “O candomblé foi o espaço que preservou e reelaborou elementos da cultura africana trazidos para o Brasil. Nos terreiros, estão elementos da alimentação, vestuário, música, artes visuais, memória oral, valores, religião...”, diz Agnes.



Carybé retrata vendedor de cana

Mãe senhora 
O candomblé foi também um importante fator na amizade entre os quatro artistas. “Carybé e Caymmi eram Obás de Xangô no Ilê Axé Opó Afonjá. Eles receberam o cargo de Mãe Senhora, então ialorixá daquele terreiro”, lembra Marielson Carvalho, professor de Literatura e Cultura da Uneb e pesquisador da obra de Caymmi.

Jorge Amado também recebeu a mesma distinção, criada no Afonjá pela ialorixá Mãe Aninha (1869-1938), que serviu para aproximar da casa  muitos intelectuais e simpatizantes. Foi no mesmo terreiro que Pierre Verger submeteu- se a um importante ritual: na década de 40, Mãe Senhora (1890-1967) consagrou sua cabeça a Xangô. O interesse do fotógrafo francês pela religião de origem africana rendeu várias viagens à África e importantes estudos sobre o tema. 

O interesse de Carybé sobre o candomblé também rendeu muitos trabalhos. Tanto que um dos volumes da coleção As Sete Portas da Bahia, que encerra a série em 21 de setembro, é dedicado exclusivamente ao tema.

Mas não eram somente os terreiros que uniam os amigos. Os encontros entre eles eram frequentes na casa de Jorge Amado, no Rio Vermelho. Aquele foi o ponto de encontro de muitos intelectuais nas décadas de 50 e 60, período em que a Bahia viveu momentos de efervescência cultural, como lembra a poeta Myriam Fraga, 76, diretora da Fundação Casa de Jorge Amado. 

Jorge havia retornado da Tchecoslováquia e, depois de passar um tempo no Rio, veio para a Bahia, achando que lá estava muito violento. Naquele mesmo período, vieram artistas plásticos  como Jenner Augusto (1924-2003), de Sergipe, e Floriano Teixeira (1923-2000), do Maranhão”.

Aquela época foi tão agitada culturalmente que o jornalista baiano José Jesus Barreto, 66, chama o período de Renascença Baiana. “A Bahia virou um celeiro intelectual. Tanto que Edgard Santos (reitor da Ufba de 1946 a 1961) chegou a afirmar: ‘Quem quiser estudar química e física vai para o Sul do país; mas se quiser arte, deve vir para a Bahia’”. 



Carybé e Verger, embora nascidos fora do Brasil, incorporaram a identidade baiana aos seus trabalhos (Foto: Arquivo pessoal)

Renascença 
Barreto é editor da trilogia literária Entre Amigos, sobre a amizade entre Carybé, Pierre Verger, Dorival Caymmi e Jorge Amado.Um dos livros, Gente da Bahia, é sobre Carybé e Verger. Além de textos sobre os dois, a publicação traz fotos de Verger acompanhadas de desenhos de Carybé, retratando as mesmas manifestações culturais ou cenas prosaicas da cidade. “O povo negro, mestiço da Bahia, que tanto atraiu os dois para o estado, têm muito destaque nesse livro”, afirma Barreto.

O mar, que também funciona como um dos símbolos da baianidade, é o que une Carybé, Verger e Caymmi no segundo livro. “Tanto Carybé como Verger chegaram à Bahia pelo mar e foram atraídos por ele. O azul do mar, o saveiro, a pesca, o xaréu... Tudo isso serviu como atrativo para que os dois permanecessem na Bahia” diz Barreto.

Obás da Bahia é o terceiro volume, que trata da relação que Carybé, Verger e Jorge Amado tinham com o candomblé. No livro, o autor desvenda por que os três artistas, mesmo não se considerando homens religiosos, se interessaram tanto pela religião.  





As baianas na Festa do Bomfim

Casal dança em festa religiosa

Graças a Jubiabá, Pierre Verger e Carybé vieram parar na Bahia
Foi graças a Antônio Balduíno que Pierre Verger e Carybé se encantaram pela Bahia. O protagonista de Jubiabá, livro escrito por Jorge Amado aos 23 anos, apresentou aos dois artistas o universo baiano que os fez virem de suas terras em busca daquela cidade descrita nos livro do jovem escritor.



Jorge Amado e Carybé são recebidos por baianas, que eram personagens frequentes de suas criações 
(Foto: Arquivo Correio)

“Carybé, na Argentina, já trabalhava com jornalismo e Verger, na França, era fotógrafo. Quando leram o que Jorge Amado escrevia sobre a cultura afro-baiana e a negritude, eles piraram”, diz José Jesus Barreto. “Os cenários descritos por Jorge Amado em Jubiabá eram tão verossímeis que, quando chegou a Salvador, Carybé saiu procurando os bares citados por Jorge, que na verdade não existiam”, observa Myriam Fraga. 

Atraídos por aquela Bahia apresentada por Jorge Amado, Carybé e Verger vieram para o Brasil, mas inicialmente para o Rio de Janeiro. Por acaso, hospedaram-se na mesma pensão e lá ficaram amigos. Carybé, inicialmente fã de Jorge Amado, acabaria sendo colaborador do escritor, ilustrando livros como Navegação de Cabotagem, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, além de uma nova edição de Jubiabá.

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