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terça-feira, 31 de janeiro de 2012


Paulo Afonso perde mais um pioneiro: morreu Diogo Andrade de Brito

Esta é uma homenagem pessoal e do jornal Folha Sertaneja, de quem Diogo foi colaborador e fonte de pesquisa histórica
Antônio Galdino
Antônio GaldinoAntônio GaldinoDiogo, sempre ativo
O domingo, dia 29 de janeiro, nos trouxe a notícia desagradável da morte de mais um pioneiro de Paulo Afonso. Diogo Andrade de Brito faleceu no começo do dia, às 7 horas da manhã, na mesa de cirurgia de um hospital em Salvador.
Todos nós perdemos um pouco. Perdeu o esporte, a música, a política, a justiça, a maçonaria, os companheiros da terceira idade.
Apesar da tristeza que nos envolveu com o impacto da notícia, não dá para visualizar nenhuma imagem nos últimos tempos que mostrem um Diogo triste e acabrunhado como poderia ser até normal para quem carregava quase 87 anos nas costas.
A alegria do músico da antiga Banda da Chesf, os acordes da música As Águas da Cachoeira, que fez em homenagem à Cachoeira de Paulo Afonso, os causos e histórias que a sua fantástica memória trazia para os risos de quem estava à sua volta, o pé de valsa, de bolero, de forró, qualquer que fosse o ritmo nas festas do pessoal da terceira idade que ele ajudou a construir e coordenar na FASETE e nos outros espalhados pela cidade, tudo isso nos traz à memória o Diogo que amava a vida que viveu intensamente.
Antônio GaldinoAntônio GaldinoDiogo, nos 50 anos da CMPA, lendo a 1ª ata da Câmara, escrita por ele, em 7/4/1959
Antônio GaldinoAntônio Galdino
Ele foi o primeiro Secretário da Câmara Municipal de Paulo Afonso, eleito pelo Partido Social Democrata - PSD e, quando este Poder Legislativo comemorava o seu Jubileu de Ouro, em 7 de abril de 2009, ali estava Diogo, na tribuna, lendo de forma perfeita e numa lucidez impressionante, a primeira ata, que ele mesmo redigira, a próprio punho, há cinquenta anos, em 9 de abril de 1959.
Em seu livro, Paulo Afonso, nós fizemos esta história, Euclides Batista conta, de forma abreviada, a caminhada de Diogo por estas terras pauloafonsinas. Em 13 de abril, Diogo da Gente, como o chamou Euclides, completaria 87 anos.

Diogo da Gente

Outono de 1925, treze de abril, em Paripiranga, seu João Fernando e dona Leontina deram ao Brasil o baianinho DIOGO ANDRADE BRITO. Predestinado para ajudar a construir Paulo Afonso, em 26/11/49 foi admitido na Chesf, com 24 anos, no comecinho das obras. Aqui conheceu Lindaura, pernambucana de Custódia, também servidora da estatal. Casaram-se e tiveram quase uma dúzia de filhos, todos pauloafonsinos, porque nordestino não dorme no ponto.
Inteligente e dinâmico, Diogo aposentou-se em 1983, após 34 anos de inestimáveis serviços.
Músico, tocou trombone e bombardino nos bailes da vida e na banda da Chesf. Ativista sindical, foi delegado do Sinergia. Preocupado com melhores condições de vida para o povo, foi vereador em duas legislaturas, inclusive na primeira, quando da emancipação de Paulo Afonso em 1958. Fanático por futebol, foi presidente da Liga Desportiva e várias vezes presidiu a Junta de Justiça Desportiva.
Engajado nas causas sociais, foi Juiz de Paz e Defensor Dativo no fórum local, de 62 a 68. Criou o Jornal de Paulo Afonso em 1961, fazendo jornalismo amador. Foi Procurador Geral do Sinergia, de 75 a 80. Foi gerente administrativo da Loja Maçônica. Patrimônio de Paulo Afonso, parte integrante da nossa história, Diogo é nosso pioneiro, nossa enciclopédia e nosso mestre, a quem tanto devemos. Cidadão de Paulo Afonso, de fato e de direito.

Da Memória de Diogo

arq. Folha Sertanejaarq. Folha SertanejaDiogo, o terceiro a partir da esquerda, em solenidade no Ginásio Paulo Afonso
Diogo Andrade de Brito, foi o primeiro Secretário da Câmara Municipal de Paulo Afonso. Dotado de memória privilegiada, ele era a salvação dos pesquisadores que queriam conhecer a história dos primeiros tempos do município de Paulo Afonso. Aqui, algumas informações preciosas que nos deixou:

Sobre o trabalho dos vereadores na 1ª legislatura:

“Os vereadores naquela época tinham duas reuniões por semana, mas ninguém era louco de falar em receber nada nem pra lavagem de roupas. Fomos eleitos sabendo que ninguém ia ganhar dez centavos. Ninguém ganhava nada, absolutamente nada. Era ideologia, ter o prazer de ser autoridade na cidade, as primeiras autoridades e trabalhava com amor, não tinha hora. Por exemplo, eu era secretário, não tinha ajudante, não tinha nada. Tinha que ir pra bancada fazer trabalho, ficar até 2horas da madrugada, tudo na mão, fazer ata, com dois dias tinha outra reunião, mas aquele prazer nosso, de paletó, mas ninguém ganhava absolutamente nada.”

Sobre a situação financeira do município:

“O município já com 20 mil habitantes pra iniciar sem dinheiro. Depois, o prefeito de Gloria, Pedro Sá, foi deixando a arrecadação daqui. O prefeito Otaviano chegou a pagar o trabalhador com açúcar, com farinha, com bolachas, do próprio armazém.(Armazém Sertânia). A renda de Paulo Afonso ficava para o Município. Muitos não pagavam, então para cobrar tinha que ser com cuidado. Tivemos que ensinar, que mostrar que todo mundo tem que pagar imposto, para ajudar na sobrevivência do próprio município. Então, com muitas dificuldades, falta de polícia, falta de tudo, trabalhávamos só com nossa boa vontade.”

Sobre a composição política da Câmara na sua 1ª legislatura:
“A primeira legislatura da Câmara começou em 7 de abril de 1959 e era formada por oito vereadores. Pelo PSD – Partido Social Democrata - foram eleitos 4 vereadores: Diogo Andrade de Brito, Noé Pereira dos Santos, Lizette Alves dos Santos e Dinalva Simões Tourinho. Pelo PTB – Partido Trabalhista Brasileiro – foram eleitos: José Rudival de Menezes, Luiz Mendes Magalhães e José Freire da Silva e pela UDN – União Democrata Nacional - foi eleito o vereador Manoel Pereira Neto.”
Caro Diogo, a gente vai sentir falta da sua memória privilegiada e da sua alegria! Estamos tristes com essa sua viagem!
Postado pelo professor Fernando, um admirador, amigo e irmão desse singular cidadão, Diogo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A história do Holocausto-por Hugo

Dilma participa na Bahia de homenagem ao Dia Internacional em Memória da...


Dilma e Wagner participam em Salvador de homenagem às vítimas do holocausto

A libertação de prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau foi lembrada durante a cerimônia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

29.01.2012 | Atualizado em 29.01.2012 - 20:40
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A libertação de prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia, em 27 de janeiro de 1945, foi lembrada neste domingo (29), em Salvador durante a cerimônia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Presidente Dilma participa em Salvador de homenagem às vítimas do holocausto

O evento começou no final da tarde deste domingo (29), no Fórum Ruy Barbosa, e foi realizado pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), em parceria com a Sociedade Israelita da Bahia (Sib). Participaram a presidente da República, Dilma Rousseff, o governador Jaques Wagner, a primeira-dama, Fátima Mendonça, a mãe do governador, Paulina Wagner, secretários de estado, entre outras autoridades.

A ONU (Organização das Nações Unidas) há sete anos estipulou o dia 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que, além de comemorar a libertação dos judeus do campo de concentração, é um tributo às milhões de pessoas exterminadas pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 

Cerca de 20 mil negros foram mortos e, segundo a Conib, esse foi um dos motivos da escolha de Salvador para sediar o evento este ano, já que a cidade possui o maior número de afrodescendentes fora da África.

A escolha de Salvador para receber o evento foi elogiada pela presidente Dilma. "Parabenizo a Confederação Israelita do Brasil pela escolha de Salvador. Essa cidade foi palco de lutas históricas, tanto pela independência do Brasil, quanto pela abolição da escravatura. Salvador é símbolo de uma comunidade que rejeita a discriminação e tem uma imensa capacidade de acolher e respeitar a diversidade."

O papel dos direitos humanos também fez parte do discurso da presidente. "O Brasil é a favor de todos os tratados de combate ao racismo, discriminação e intolerância religiosa. Sabemos que nossa sociedade ainda discrimina negros, homossexuais ou qualquer pessoa que considere diferente.
Porém as sociedades democráticas têm o poder de combater crimes como o holocausto para que eles nunca mais ocorram." A presidente finalizou dizendo que "nações dignas só se constrõem com democracia, igualdade e tolerância religiosa."

Compareceram ainda ao evento a presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, Telma Brito, o vice-governador, Otto Alencar, o presidente da Ordem dos Advogados da Bahia, Saul Quadros, a ministra da Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros e a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário.

Dilma na Bahia
Após a cerimônia deste domingo, a presidente Dilma continua na Bahia e, nesta segunda-feira (30), ela vai a Camaçari acompanhada do governador Jaques Wagner, onde a presidente assina, às 9h30, na Cidade do Saber, a ordem de serviço para revitalização urbanística da Bacia do Rio Camaçari. As obras contam com investimento de aproximadamente R$ 274 milhões e fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento II, beneficiando 90 mil moradores.

Postado pelo professor Fernando

domingo, 29 de janeiro de 2012


Como se desvia dinheiro no Brasil (trecho)

Com base na análise de casos recentes, ÉPOCA lista as modalidades de corrupção mais comuns no Brasil – e propõe ideias para diminuir a roubalheira

MARCELO ROCHA
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- (Foto: Shutterstock)
O livro Arte de furtar foi concluído em 1656. Atribuído ao Padre Antônio Vieira (mais tarde essa autoria seria contestada), o documento era endereçado ao rei de Portugal, Dom João IV, um dos primeiros representantes da Casa de Bragança. Com o intuito de alertá-lo sobre os malfeitos de seus súditos no além-mar, a obra lista as diversas maneiras encontradas pelos representantes da coroa portuguesa para desviar dinheiro público na colônia. Uma breve passeada pelos títulos de alguns de seus 70 capítulos mostra como a “arte” já se manifestava e se aperfeiçoava no Brasil do século XVII: “Dos que furtam com unhas invisíveis”, “Dos que furtam com unhas toleradas”, “Dos que furtam com unhas vagarosas”, “Dos que furtam com unhas alugadas”, “Dos que furtam com unhas pacíficas” e até “Dos que furtam com unhas amorosas” são alguns deles.   
DENÚNCIA Uma edição de 1926 do livro Arte de furtar, obra finalizada em 1652 para alertar o rei de Portugal sobre os malfeitos de seus súditos no Brasil Colônia  (Foto: Sidinei Lopes )
O livro Arte de furtar é uma amostra de como a discussão sobre a corrupção é antiga no Brasil – e a leitura diária dos jornais atesta que o assunto continua presente. Na semana passada, O Globo publicou que o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, o DNOCS, teve um prejuízo de R$ 312 milhões em contratações irregulares e gestão de pessoal. No dia seguinte, a presidente Dilma Rousseff – que popularizou a expressão “malfeito” durante um encontro com Barack Obama, dizendo que não os toleraria em seu governo – teve de mostrar mais uma vez que dizia a verdade. A partir da reportagem, ela decidiu, em mais um lance de sua bem-vinda “limpeza”, negociar com o PMDB para retirar Elias Fernandes Neto, diretor do DNOCS, da direção do órgão. Na quinta-feira, ele saiu.
Para os governantes
A tolerância do eleitor com os “malfeitos” é muito menor em sociedades democráticas e com imprensa livre

Para o eleitor
Saber como se rouba ajuda na fiscalização dos políticos
 
Não existe sociedade cuja população seja mais ou menos propensa ao roubo. Uma pesquisa científica feita anos atrás mostrou que, diante de uma situação de dilema ético, cerca de 10% das pessoas agem de acordo com rígidos princípios morais, outros 10% agem de forma a tirar o máximo de vantagem, mas a maioria absoluta, cerca de 80%, se pauta principalmente pela possibilidade de ser apanhada. Esse resultado se repete de forma praticamente idêntica em diferentes nações. Portanto, o que faz diferença no nível de corrupção de cada sociedade não é a ideologia, a religiosidade ou a classe social de origem de seus dirigentes, mas as formas com que suas instituições vigiam e punem os responsáveis.
Quem estuda o tema corrupção sem recalque moralista ou interesse partidário costuma dizer que é impossível medir com precisão o tamanho da roubalheira em cada cidade, Estado ou nação. O que alguns rankings internacionais costumam mostrar nada mais é que a percepção da corrupção, uma ideia tão imprecisa quanto a percepção do medo, da saudade ou do amor. Quem rouba não deixa recibo. Tudo o que se conhece, portanto, não é o que foi efetivamente roubado, mas apenas a fração correspondente ao que foi denunciado, flagrado ou investigado.

Técnicos do governo encarregados do combate à corrupção dizem que, nos últimos anos, os mecanismos de controle avançaram, as investigações se tornaram mais profissionais e os órgãos de fiscalização trabalham mais em parceria. No ano passado, a Controladoria-Geral da União (CGU) apurou desvios que chegam a R$ 1,8 bilhão. A soma é resultado de investigações que envolveram licitações fraudadas, cobranças indevidas de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) e verbas que seriam empregadas em atividades esportivas para crianças carentes. Desde 2002, quando a CGU passou a consolidar os números, os desvios somam R$ 7,7 bilhões. Esses valores representam o montante que deve ser cobrado dos responsáveis por essas irregularidades, mas, sabidamente, está longe de ser o montante que foi roubado no Brasil.

Se é muito difícil medir com exatidão quanto se rouba, bem menos complicado é saber como se rouba, como já havia reparado o autor do livro de três séculos atrás. Furtar, de fato, é uma arte. Não no sentido de ser algo louvável, mas no sentido de envolver uma multiplicidade de técnicas. O roubo clássico é o desvio de dinheiro de obras públicas, com fraudes em licitações e superfaturamento de preços. Em tempos recentes, a “arte” se sofisticou, envolvendo operações mais imateriais, como cursos e consultorias – serviços mais difíceis de quantificar em termos monetários. Na reportagem que se segue, ÉPOCA listou sete das modalidades de desvio mais comuns no Brasil atual, exemplificando cada uma com casos recentes denunciados pela imprensa.

No ano passado, a Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu recuperar R$ 330 milhões para os cofres públicos em ações que tramitam na Justiça que envolvem, entre outros, casos de corrupção contra a administração pública. Só em 2011, a AGU entrou com ações que pedem a devolução de R$ 2,3 bilhões. É uma luta que vale a pena. Ao ler sobre corrupção praticamente todos os dias na imprensa, é comum que o cidadão muitas vezes se sinta perdido, confuso, desorientado. O guia a seguir visa mostrar que, de maneira geral, a corrupção não é algo tão complexo e rocambolesco como muitas vezes pode parecer. Como uma carta endereçada ao cidadão brasileiro, da mesma forma que Arte de furtar se dirigia ao rei Dom João IV, o objetivo singelo desse levantamento é mostrar como se rouba no Brasil atual. Sempre tendo em vista que, entre estes cidadãos, está a presidente Dilma Rousseff, tão preocupada com os “malfeitos”.
 
Postado pelo professor Fernando

sábado, 28 de janeiro de 2012

Se eu quiser falar com Deus - Gilberto Gil

Palco - Gilberto Gil

Palco - Gilberto Gil

Drão - Gilberto Gil


70 Expresso

A morte, a vida, a arte...Gilberto Gil passou sete décadas fazendo perguntas a si e aos outros. Não chegou às respostas, mas aprendeu algo importante: fazer mais perguntas

27 de janeiro de 2012 | 21h 25
Julio Maria - O Estado de S.Paulo
O garoto que vinha naquele trem direto de Bonsucesso pra depois do ano 2000 chega introspectivo, cheio de perguntas, mais ‘da terra’ e menos tropicalista que seu outro passageiro, Caetano Veloso. Gilberto Gil, 70 anos em 26 de junho próximo, não sente falta da sauna a vapor que fazia suas ideias ferverem em outras eras. Arrisca-se a dizer que prefere o Gil de hoje. Ao contrário de Caetano e Chico Buarque, que considera artistas em pleno processo evolutivo de linguagem, ele quer a calma dos recantos, a serenidade. Seu próximo disco, diz ao C2+Música, será enfim o álbum só de sambas anunciado há mais de dez anos. Um parceiro sambista, ainda sob sigilo, será chamado para dividir o projeto com ele. E a produção deverá ficar nas mãos de Moreno Veloso, filho de Caetano, e de seu próprio filho, Bem Gil. Com sua obra toda na internet recém-reunida no site gilbertogil.com.br, o baiano de Tororó diz que não se preocupa em ter respostas para tudo. Mas tem.
"Meu filho disse: 'É gozado alguém ter orgulho do pai ter sido preso, mas eu tenho orgulho de você'" - Divulgação
Divulgação
"Meu filho disse: 'É gozado alguém ter orgulho do pai ter sido preso, mas eu tenho orgulho de você'"
Existe essa história de que o tempo dá sabedoria, serenidade, equilíbrio..
Caetano diz que quem não morre fica velho. E quem fica velho amadurece, passa a ter mais escopo, mais visão, mais clareza, quietude.
Mas isso é bom para o criador? A voracidade não lhe faz falta?
Isso cria uma rarefação da atmosfera criativa. Na juventude, a atmosfera é densa, saturada de paixão, interesse, tensão, desejo permanente de apropriação da poesia, da música. Não sei se o jovem cria melhor, mas cria mais. O tempo tira a sauna a vapor, não há mais aquele desafio.
A sauna não lhe faz falta?
Olha, para lhe ser sincero eu até gosto mais hoje, eu me preparei para a velhice. Eu venho ficando velho há muito tempo, me preparo para a velhice, me preparo para a morte, coisas que não interessam a muita gente.
Se prepara para a morte?
Entro com tranquilidade em cada novo portal da vida, sendo que a morte é o último deles. Você entra em um, em dois, três, quatro, cinco... A morte é o último e faz parte da vida.

Vejamos na hora...
(Risos) Ah, na hora é outra coisa. Digo lá na última estrofe daquela música (Não Tenho Medo da Morte), como é? (Repórter cantarola "Se Eu Quiser Falar com Deus"). Não, não é essa. Essa é sobre Deus, Não Tenho Medo da Morte é sobre mim. Não tem Deus nenhum na história (risos). "Naquele instante então, sentirei quem sabe um choque, um piripaque, um baque, um calafrio ou um toque. Coisas naturais da vida, como comer, caminhar. Morrer de morte matada, morrer de morte morrida, quem sabe eu sinta saudade, como em qualquer despedida..." Isso é lindo. Só na hora que vou ver. Quem sabe eu sinta saudade, como em qualquer despedida...
E você continua não dando a mínima para o que está lá do outro lado...
Sim, porque o que está lá do outro lado não nos diz respeito. Por isso é que digo que não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer, porque morrer é ato, me dirá respeito, estarei envolvido naquilo. "Terei que morrer vivendo, sabendo que já me vou."
A felicidade produz menos?
Sei não, os momentos de júbilo são muito generosos, eles mexem com a fantasia. Me deram muita música de festa, muita celebração.
Mas não foram nos anos de ditadura, de sofrimento coletivo e social, que formou-se uma escola de grandes metáforas? Devemos à ditadura a qualidade poética de nossas letras?
Sim, pelo menos em uma boa parte. Eu, Caetano, Chico, Edu Lobo, Vandré, Gal, Rita Lee... Vá botando nome nisso aí. A gente tinha de criar os simulacros disso e daquilo, as metáforas, a gente tinha que ficar ali fazendo o trabalho que o publicitário faz. Como é que doura essa pílula, como é que fala da revolta sem dizer o nome dela, como falar da indignação sem levantar suspeitas?

E aí você vai para o exílio, e isso é um prato cheio para um criador, não?
Quando me exilei, aquilo tudo foi-se embora também, foi comigo para o exílio. Exilou-se comigo. Eu não era como os meninos da militância política, para quem o exílio era classicamente exílio. Eu era um artista e minha militância era um episódio de minha vida de artista, não era a essência, não era meu ofício militar.
Mas ali você também ganha um carimbo a seu favor, o de 'exilado'.
Sem dúvida. Ontem mesmo meu filho disse para mim: "É gozado alguém ter orgulho de o pai ter sido preso, mas eu tenho um orgulho danado de você ter sido preso, pai". (Em 1976, Gil foi preso por porte de maconha). Ser contra a ditadura era um ato heroico, era grandioso. O exílio carimbou um passaporte para mim (risos).
Agora dá até parar rir.
Quando fomos para Londres, o fantasma da prisão era muito recente, a gente tinha medo, ninguém sabia como seria o futuro do Brasil. Eu pensava em quando poderia voltar, como voltar... Fiquei 1969, 1970, 1971. E se tudo permanecesse, sei lá por quanto tempo, e se esse tempo tomasse minha vida toda? Poder sorrir do exílio não era tão possível no exílio.
Colocar Beatles com Banda de Pífanos de Caruaru, você diz, foi a semente da Tropicália. A teoria era fantástica, mas a turma não deixou muita gente boa de fora? Excluir não foi um erro?
Nós pagamos por sermos radicais. Quem pagou o preço por fazer o que fizemos fomos nós, e um dos preços foi o exílio. Não flutuamos na superfície da facilidade, da unanimidade, da grande recepção popular. A Tropicália tinha um preço, mas também tinha um resultado, um produto. Quem não veio participar não deixou seu peso na história.
Foi de gaiato que você entrou naque-la Passeata Contra a Guitarra Elétrica (liderada por Elis Regina em 1967, com Edu Lobo e Jair Rodrigues)?
Era um prazer, eu era atraído por Elis, sonhei em ser namorado dela, me apaixonei, mas nunca disse nada. Eu participava com ela daquela coisa cívica, em defesa da brasilidade, tinha aquela mítica da guitarra como invasora, e eu não tinha isso com a guitarra, mas tinha com outras questões, da militância, era o momento em que nós todos queríamos atuar. E aquela passeata era um pouco a manifestação desse afã na Elis.
E foi a maior prova de amor que você já deu a alguém.
(Risos) Sem dúvida a maior que já dei em minha vida (risos). Caetano não quis participar porque aquilo tinha um resultado negativo, negava uma série de coisas que a ele interessava afirmar naquele momento. No meu caso, eu saí desse jogo. Não quis fazer esse jogo, se eu fosse colocar como termo da equação essas questões e tirar a Elis da equação eu não teria ido. Mas eu fiz o contrário, eliminei todos os outros termos da equação e deixei ali só a Elis. Determinei meu ato, pautei meu ato por aquela questão. A questão era ela. Eu não tinha nada contra a guitarra elétrica.
Ouviu o disco novo da Gal, produzido pelo Caetano? Não estranhou nada?
Não me estranhou nada, primeiro porque é uma iniciativa do Caetano, faz parte da linha evolutiva dele, que acontece desde o Estrangeiro, ou se quisermos, desde o Cê.
E como fica Gal?
A Gal está ali, ela sempre foi uma coadjuvante importante para Caetano, desde Domingo. Na turma baiana, esse par se fez logo, Gal e Caetano são uma parelha. Caetano não tem inibição nenhuma em colocar a Gal nesses trabalhos de coadjuvância.
Eles arriscam bem, não parecem estar na desaceleração que você diz estar aos 70 anos.
Ah sim. E na mesma direção vai o disco novo do Chico Buarque, que é de progressão de uma proposta. Chico e Caetano estão em progressão. Eu sou outra pessoa. Ao menos como proposta, não estou em evolução. Estou no caminho contrário, revisitando recantos da infância, da festa nordestina.
Seu próximo disco assim?
Vou fazer o disco de sambas finalmente, mas já falei demais sobre isso, parece que quando falamos não acontece. Bom, posso te dizer que vou chamar o Moreno Veloso e meu filho, Bem, para produzir. E que terá um sambista importante. Vamos ver.