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terça-feira, 31 de janeiro de 2012


Paulo Afonso perde mais um pioneiro: morreu Diogo Andrade de Brito

Esta é uma homenagem pessoal e do jornal Folha Sertaneja, de quem Diogo foi colaborador e fonte de pesquisa histórica
Antônio Galdino
Antônio GaldinoAntônio GaldinoDiogo, sempre ativo
O domingo, dia 29 de janeiro, nos trouxe a notícia desagradável da morte de mais um pioneiro de Paulo Afonso. Diogo Andrade de Brito faleceu no começo do dia, às 7 horas da manhã, na mesa de cirurgia de um hospital em Salvador.
Todos nós perdemos um pouco. Perdeu o esporte, a música, a política, a justiça, a maçonaria, os companheiros da terceira idade.
Apesar da tristeza que nos envolveu com o impacto da notícia, não dá para visualizar nenhuma imagem nos últimos tempos que mostrem um Diogo triste e acabrunhado como poderia ser até normal para quem carregava quase 87 anos nas costas.
A alegria do músico da antiga Banda da Chesf, os acordes da música As Águas da Cachoeira, que fez em homenagem à Cachoeira de Paulo Afonso, os causos e histórias que a sua fantástica memória trazia para os risos de quem estava à sua volta, o pé de valsa, de bolero, de forró, qualquer que fosse o ritmo nas festas do pessoal da terceira idade que ele ajudou a construir e coordenar na FASETE e nos outros espalhados pela cidade, tudo isso nos traz à memória o Diogo que amava a vida que viveu intensamente.
Antônio GaldinoAntônio GaldinoDiogo, nos 50 anos da CMPA, lendo a 1ª ata da Câmara, escrita por ele, em 7/4/1959
Antônio GaldinoAntônio Galdino
Ele foi o primeiro Secretário da Câmara Municipal de Paulo Afonso, eleito pelo Partido Social Democrata - PSD e, quando este Poder Legislativo comemorava o seu Jubileu de Ouro, em 7 de abril de 2009, ali estava Diogo, na tribuna, lendo de forma perfeita e numa lucidez impressionante, a primeira ata, que ele mesmo redigira, a próprio punho, há cinquenta anos, em 9 de abril de 1959.
Em seu livro, Paulo Afonso, nós fizemos esta história, Euclides Batista conta, de forma abreviada, a caminhada de Diogo por estas terras pauloafonsinas. Em 13 de abril, Diogo da Gente, como o chamou Euclides, completaria 87 anos.

Diogo da Gente

Outono de 1925, treze de abril, em Paripiranga, seu João Fernando e dona Leontina deram ao Brasil o baianinho DIOGO ANDRADE BRITO. Predestinado para ajudar a construir Paulo Afonso, em 26/11/49 foi admitido na Chesf, com 24 anos, no comecinho das obras. Aqui conheceu Lindaura, pernambucana de Custódia, também servidora da estatal. Casaram-se e tiveram quase uma dúzia de filhos, todos pauloafonsinos, porque nordestino não dorme no ponto.
Inteligente e dinâmico, Diogo aposentou-se em 1983, após 34 anos de inestimáveis serviços.
Músico, tocou trombone e bombardino nos bailes da vida e na banda da Chesf. Ativista sindical, foi delegado do Sinergia. Preocupado com melhores condições de vida para o povo, foi vereador em duas legislaturas, inclusive na primeira, quando da emancipação de Paulo Afonso em 1958. Fanático por futebol, foi presidente da Liga Desportiva e várias vezes presidiu a Junta de Justiça Desportiva.
Engajado nas causas sociais, foi Juiz de Paz e Defensor Dativo no fórum local, de 62 a 68. Criou o Jornal de Paulo Afonso em 1961, fazendo jornalismo amador. Foi Procurador Geral do Sinergia, de 75 a 80. Foi gerente administrativo da Loja Maçônica. Patrimônio de Paulo Afonso, parte integrante da nossa história, Diogo é nosso pioneiro, nossa enciclopédia e nosso mestre, a quem tanto devemos. Cidadão de Paulo Afonso, de fato e de direito.

Da Memória de Diogo

arq. Folha Sertanejaarq. Folha SertanejaDiogo, o terceiro a partir da esquerda, em solenidade no Ginásio Paulo Afonso
Diogo Andrade de Brito, foi o primeiro Secretário da Câmara Municipal de Paulo Afonso. Dotado de memória privilegiada, ele era a salvação dos pesquisadores que queriam conhecer a história dos primeiros tempos do município de Paulo Afonso. Aqui, algumas informações preciosas que nos deixou:

Sobre o trabalho dos vereadores na 1ª legislatura:

“Os vereadores naquela época tinham duas reuniões por semana, mas ninguém era louco de falar em receber nada nem pra lavagem de roupas. Fomos eleitos sabendo que ninguém ia ganhar dez centavos. Ninguém ganhava nada, absolutamente nada. Era ideologia, ter o prazer de ser autoridade na cidade, as primeiras autoridades e trabalhava com amor, não tinha hora. Por exemplo, eu era secretário, não tinha ajudante, não tinha nada. Tinha que ir pra bancada fazer trabalho, ficar até 2horas da madrugada, tudo na mão, fazer ata, com dois dias tinha outra reunião, mas aquele prazer nosso, de paletó, mas ninguém ganhava absolutamente nada.”

Sobre a situação financeira do município:

“O município já com 20 mil habitantes pra iniciar sem dinheiro. Depois, o prefeito de Gloria, Pedro Sá, foi deixando a arrecadação daqui. O prefeito Otaviano chegou a pagar o trabalhador com açúcar, com farinha, com bolachas, do próprio armazém.(Armazém Sertânia). A renda de Paulo Afonso ficava para o Município. Muitos não pagavam, então para cobrar tinha que ser com cuidado. Tivemos que ensinar, que mostrar que todo mundo tem que pagar imposto, para ajudar na sobrevivência do próprio município. Então, com muitas dificuldades, falta de polícia, falta de tudo, trabalhávamos só com nossa boa vontade.”

Sobre a composição política da Câmara na sua 1ª legislatura:
“A primeira legislatura da Câmara começou em 7 de abril de 1959 e era formada por oito vereadores. Pelo PSD – Partido Social Democrata - foram eleitos 4 vereadores: Diogo Andrade de Brito, Noé Pereira dos Santos, Lizette Alves dos Santos e Dinalva Simões Tourinho. Pelo PTB – Partido Trabalhista Brasileiro – foram eleitos: José Rudival de Menezes, Luiz Mendes Magalhães e José Freire da Silva e pela UDN – União Democrata Nacional - foi eleito o vereador Manoel Pereira Neto.”
Caro Diogo, a gente vai sentir falta da sua memória privilegiada e da sua alegria! Estamos tristes com essa sua viagem!
Postado pelo professor Fernando, um admirador, amigo e irmão desse singular cidadão, Diogo.