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quarta-feira, 29 de junho de 2011

O que é ser Judeu?








Mesmo para aqueles que acham que judaísmo é apenas uma religião, o assunto provoca divergências. Não é por acaso que se conta a história do náufrago judeu que, após dez anos desaparecido, é encontrado numa ilha deserta por um navio que por lá passava.


O capitão encantou-se com as estratégias de sobrevivência dele, que incluíam a construção de uma casa bastante sólida, a confecção de redes de pesca e arpões e, para sua surpresa, duas sinagogas.


"Duas sinagogas", perguntou o capitão, "para que construir duas sinagogas se você está sozinho na ilha"? "Muito simples", respondeu o náufrago. "Naquela eu rezo todos os sábados. Já na outra eu não entro de jeito nenhum".


Assim são os judeus religiosos: uns, ortodoxos, outros conservadores, os terceiros liberais e ainda os reformistas, alem de várias outras denominações. A convivência nem sempre é pacífica, mas a ausência de um poder central e de uma função sagrada para os rabinos (diferente dos padres católicos, rabinos não falam em nome de Deus, não dão sacramentos, e qualquer ato religioso judaico pode ser realizado sem a sua presença) faz com que as diferentes comunidades contratem diferentes tipos de rabino. Há, inclusive, rabinos gays e "rabinas". Seu papel mais importante é adaptar leis milenares às práticas de cada grupo.


É por isso que uma comunidade tão pequena como a brasileira - menos de 0,1% da população do país - tem tantas sinagogas, organizações e porta-vozes. É muito cacique para pouco índio.


Mas limitar o judaísmo à identidade religiosa não responde todas as situações. É possível dizer que Philip Roth não seja um escritor judeu, que Woody Alen não é um cineasta judeu, que Marc Chagall não foi um pintor judeu, que Sigmund Freud não tenha sido judeu?


O judaísmo está muito presente nas obras de todos esses gênios. Uma parcela significativa da juventude israelense, como protesto pela inexistência do casamento civil no Estado de Israel, recusa-se a se casar na sinagoga e viaja até Chipre para oficializar sua união. Seriam esses jovens não judeus?


Não há uma única forma de identificar os judeus. Eles não permaneceram identificados como tais apesar da História, mas por causa da História. Não fossem necessários, teriam desaparecido como povo. O grande segredo da sua permanência é que não permaneceram, mudaram.


Nada mais distante de um judeu do gueto do que um outro que transcenda a idéia da nação. Quando, depois de muitos séculos, os judeus obteveram sua emancipação como cidadãos – isso tudo só após a Revolução Francesa – muitos saíram da cidadezinha para o mundo, tocando música, escrevendo, pintando, marcando, enfim, sua presença no mundo a partir do início do século XX.


Isso, contudo, só ocorre para uma pequena fração de judeus. A maioria continuava nas aldeias e nos bairros pobres das cidades da Europa Oriental. E é nesses ambientes que surge o nacionalismo judaico. Deve-se localizar as raízes da identidade nacional judaica no século XIX, na Europa Centro Oriental e atribuí-la a três fatores complementares: o esgotamento das formas de existência judaica nas aldeias (shtetl) e nos guetos das cidades da Polônia e região; a "primavera das nações", então em curso, que se apresentava como panacéia universal, remédio destinado a superar pobreza e perseguições (não foi, como sabemos); o profundo sentimento de identidade cultural.


A tese é de fácil demonstração. O próprio criador do assim chamado "sionismo político" Theodor Herzl, era um jornalista austríaco bastante incorporado à sociedade não judaica. Seu "retorno" ao judaísmo se deu após ele ter sido designado por seu jornal para cobrir o julgamento do Capitão Dreyfuss, em Paris, quando anti-semitas franceses acusaram o militar judeu de traição.


A França se dividiu e proporcionou importantes manifestações anti-judaicas. Herzl concluiu que, enquanto os judeus não tivessem uma nação própria, eles não teriam dignidade e estariam sujeitos a todo tipo de perseguições. Escreveu um livro "O Estado Judeu" que teve grande impacto, mas não foi unanimidade entre os judeus.


Uns porque esperavam a manifestação do Messias, que era a quem, segundo eles, caberia determinar o "retorno" à Terra Santa; outros porque se sentiam apenas ingleses ou franceses de fé "mosaica" e não queriam ser percebidos como alguém com dupla lealdade (ainda não estávamos em nosso atual estágio de várias identidades nacionais sobrepostas e aceitas); outros ainda porque apostavam na solidariedade entre os oprimidos de todos os países e crenças, algo que só poderia ocorrer por ocasião de uma revolução socialista de caráter internacional, e não "por meio de soluções parciais e nacionais".


Embora a colonização moderna da Palestina pelos judeus tenha se iniciado no final do século XIX e tenha ganhado força no início do XX, com a fundação das primeiras colônias coletivas de caráter comunista (kibutz) e cooperativas de trabalhadores rurais (moshav), ela não era ainda muito significativa em termos quantitativos até a década de 1930.


A ascensão de Hitler ao poder, a "solução final", concebida e executada pelos nazistas (com o assassinato sistemático da maioria da população judaica européia) fez com que grande parte dos judeus não percebessem outra solução que não a "reconstrução" de um estado que pudesse funcionar como refúgio a todos os judeus do mundo que se sentissem perseguidos. Essa é a história de Israel.


Isso faz com que todos os judeus sejam israelenses e que todos os israelenses sejam judeus? Claro que não. Em Israel existe um importante número de israelenses árabes, muçulmanos ou cristãos. E bem menos da metade da população judaica do mundo vivem lá – qualquer que seja o critério que utilizemos para definir esta identidade.


Há, sempre, quem olhe o judeu de forma preconceituosa, francamente negativa ou falsamente positiva, mas nem por isso menos discriminatória. Há quem diga que existe um judaísmo gastronômico, outro ufanista (esgrimindo com violinistas, escritores e cientistas judeus que ganharam o prêmio Nobel).


Há mesmo quem ainda acredite que os judeus sejam o povo eleito. Tenho, contudo, a convicção de que sua experiência como discriminados habilitou os judeus a lutar contra qualquer discriminação, e o período da vida na aldeia isolada ou nos guetos desenvolveu em muitos judeus o ódio ao etnocentrismo, ao horizonte limitado.


Há um judaísmo universal e ele pode ser praticado.


Jaime Pinsky, paulista de Sorocaba, é doutor e livre docente em história pela USP e professor titular pela Unicamp, universidades em que trabalhou. É autor e/ou organizador de mais de 20 livros, entre os quais Origens do Nacionalismo Judaico e História da Cidadania. Atualmente é diretor editorial da Editora Contexto.