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domingo, 15 de janeiro de 2012


Rita Lee, Milton Nascimento e outros relembram vida de Elis em SP

RENATA D'ELIA
DE SÃO PAULO

O amor de Elis Regina por São Paulo durou aproximadamente 18 anos entre hiatos e acontecimentos marcantes da MPB. Foram festivais, programas de TV, shows, gravações e pelo menos quatro residências na capital que sediaram encontros entre músicos e ensaios. Nas horas vagas, Elis buscava compensar o estrelato num cotidiano de mãe paulistana: levava os filhos para a escola, fazia compras, frequentava cinema e saía para jantar.
A gaúcha, cuja morte completa 30 anos na próxima quinta (19), chegou à cidade em 1964, aos 19 anos, após tentar a sorte no Rio. Seu primeiro show aconteceu no extinto bar Djalma, da praça Roosevelt, região central. O produtor Solano Ribeiro, primeiro namorado, a levava para o João Sebastião Bar, o Bar Redondo e a Galeria Metrópole, redutos artísticos.
Acervo UH/Folhapress
A cantora Elis Regina apresentando-se no palco do 3º Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record.
A cantora Elis Regina apresentando-se no palco do 3º Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record.
"Foi ali que a apresentei ao cineasta Glauber Rocha. Ele estava inaugurando uma nova linguagem, o Cinema Novo", conta. "Mas sugeriu que a gente assistisse a 'A Hard Day's Night', primeiro filme dos Beatles, dizendo que era muito inovador. A Elis amou."
A cantora, que morava num apartamento na avenida São João, gostava de cantar na janela. Sua consagração veio em 1965 com o primeiro Festival de Música da TV Excelsior. Do júri do teatro, atual Cultura Artística, o radialista Walter Silva "Pica-Pau" convidou-a para participar do show "Dois Na Bossa", ao lado de Jair Rodrigues. As apresentações deram origem ao programa "O Fino da Bossa", no ar até 1967 na TV Record.
"O teatro ficava no final da Consolação e a fila vinha desde o cemitério. Havia trânsito e buzina", relembra Jair. O pianista Amilton Godoy, do Zimbo Trio, banda titular do programa, acredita que o "Fino" marcou a preferência de Elis pela cidade. "Ela achava que o paulista era mais qualificado para ouvir música, não aplaudia qualquer oba-oba e era mais aberto ao que vinha de fora."
Ineditismo
Elis Regina já recebia o maior cachê do Brasil quando se mudou para um apartamento na avenida Rio Branco, na região central. Milton Nascimento foi até lá para mostrar suas músicas. "Gilberto Gil também era iniciante. Estava lá ajudando Elis a escolher repertório para o próximo disco", conta Milton. "Toquei todas as minhas músicas com os dois em silêncio. Até que ela me perguntou se não havia mais nenhuma. Por fim, apresentei a 'Canção do Sal' e ela decidiu gravar. Tudo que eu compus desde então foi para Elis", afirma.
A cantora liderou uma passeata contra as guitarras elétricas, na avenida Brigadeiro Luís Antonio, ao lado de Jair, Gil e Edu Lobo, antes de se mudar para o Rio e se casar com Ronaldo Bôscoli, em 1967. Só voltou após a separação e um novo casamento com o músico César Camargo Mariano.
Faxina e churrasco
A primeira casa paulistana de Elis e César estava localizada na rua Califórnia, no Brooklin, zona sul. "João Marcello, filho dela, tinha quatro anos e ficava vestido de Batman, voando entre os instrumentos", conta o guitarrista Natan Marques, que esteve lá em 1974 para um ensaio. Na época, a cantora era vista andando de ônibus pela zona sul, contam os mais próximos.
Após o nascimento do filho Pedro, em 1975, ela estreou "Falso Brilhante", show de atmosfera circense. Os ensaios aconteciam numa sala cedida pela prefeitura embaixo do viaduto do Chá, na região central. "Ela achou o lugar muito sujo. Fez uma baita faxina no primeiro dia. Depois, preparou lanches para todos os músicos", lembra Natan.
Foram mais de 1.200 apresentações em 14 meses no teatro Bandeirantes, na rua da Consolação. Depois dos shows, bares e restaurantes do centro e da zona oeste recebiam a trupe. Os mais procurados eram Dona Graxa, Piolin, Gigetto, Senzala, Rubaiyat e Don Curro.
Foi de Elis a única visita que Rita Lee recebeu quando estava presa na cadeia do Hipódromo, em 1976. "Ela rodou a baiana para saber se me tratavam bem. Eu era da turma das guitarras contra a qual eles fizeram a passeata em 1967. Mas, a partir dali, viramos amigas de infância.".
Com a mudança para a serra da Cantareira, na zona norte, as reuniões caseiras se tornaram mais comuns. "Ao invés de cães de guarda, eram gansos brabíssimos que vinham nos receber. Morria de medo deles", também conta Rita.
A cantora Márcia, companheira desde as rádios gaúchas, também foi comadre. "Nós falávamos de maridos, bordado e artesanato. Nossos filhos estudavam no colégio Pueri Domus. Ela achava que São Paulo era o melhor lugar do Brasil para criar filhos", diz.
O compositor Thomas Roth esteve no hospital São Luiz após o nascimento de Maria Rita, caçula de Elis. "Ela optou por uma técnica de parto similar à dos indígenas. Foi nos receber na porta, enquanto César descansava na cama. Com um senso de humor incrível, apontou para César e disse: vejam no que deu o parto de índio."
João Marcello se lembra de passeios pelo Simba Safari, pelo Planetário e pelo Mercado Municipal. "Ela ia meio disfarçada com lenço e óculos escuros. De vez em quando era descoberta e precisávamos ir embora correndo. Mas, como adorava fazer esse tipo de coisa, sempre voltava", conta.
Açougueiro na Vila Albertina, zona norte, o português Manoel Rodrigues ajudava a cliente, que era baixinha, a descer de seu jipe. Maria Rita ia para o colo do comerciante. Elis usava o telefone da loja e até pegava emprestado alguns cruzeiros para ir à quitanda. "Ela entendia de carne. Tirava a peça do gancho e cortava o contra-filé da bisteca em pedaços grandes", conta.
"Ela fazia churrascos, era corintiana e gostava do Lula. Gravava discos no Bexiga e almoçava nas cantinas mais banais do bairro, sem cerimônia. Não é à toa que o povo se identifica com ela", diz o compositor Renato Teixeira, que alugou a casa de Elis na Cantareira quando a cantora se mudou para o último apartamento, na rua Melo Alves, Jardins, zona oeste.
Gilberto dos Santos/Folhapress
Carro levando o corpo da cantora Elis Regina em frente ao Teatro Bandeirantes. Cerca de 50 mil pessoas acompanharam o cortejo
Carro levando o corpo da cantora Elis Regina em frente ao Teatro Bandeirantes. Cerca de 50 mil pessoas acompanharam o cortejo
Fiat 147
O assessor de imprensa Marcio Gaspar trabalhou na divulgação do álbum "Essa Mulher" (1979). De tanto rodar a cidade a bordo de um Fiat 147 rumo às rádios paulistanas, os dois ficaram amigos. Gostavam também de varar a madrugada conversando em passeios de carro pela avenida Paulista. "Ela mudava de humor muito rápido, competia com as outras cantoras. Quando esbravejava, ficava completamente vesga. Mas era muito divertida", afirma.
Foram ainda duas temporadas de shows na zona norte de São Paulo. "Essa Mulher" (1979) estreou no Palácio Anhembi. "Trem Azul" (1981), seu último show, inaugurou o Canecão Santana, extinto logo depois. Segundo os amigos, Elis parecia bem disposta, preparava um novo disco e procurava imóveis no Alto de Pinheiros, na zona oeste, quando morreu por overdose de cocaína, álcool e medicamentos.
Na manhã de 19 de janeiro de 1982, uma multidão se aglomerou em frente ao prédio. "A janela da sala estava aberta, havia muita tristeza e silêncio", diz a aposentada Alba Provezano, que estava presente. O cortejo fúnebre reuniu milhares de pessoas, partindo do teatro Bandeirantes até o cemitério do Morumbi. Elis Regina foi enterrada vestindo uma camisa com a bandeira do Brasil.

Postado pelo professor Fernando