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domingo, 8 de novembro de 2009

Shimon Peres no Brasil

Shimon Peres: "O Brasil é o primeiro país que desconhece a discriminação racial"
O presidente de Israel, que chegará ao Brasil na terça-feira (10), fala a ÉPOCA sobre o que pretende conhecer por aqui e comenta a relação brasileira com o Irã: "Acredito que Lula seja um homem com valores, que condenaria uma tentativa de destruir outro país"
Juliano Machado, de Jerusalém
Jim Hollander

Quais são as razões da sua visita ao Brasil? E o que o senhor espera dela?
Shimon Peres - "Espero (aprender) e ver se conseguimos melhorar e enriquecer as relações entre Israel e o Brasil. Sobre aprender, quando penso no Brasil, penso nas seguintes coisas que me impressionam: talvez o Brasil seja o primeiro país do mundo que decidiu enfatizar as questões sociais, acima de considerações econômicas. O Brasil acredita que a economia deve ajudar a sociedade, não o contrário. Não haveria nada sensacional nisso, se não houvesse sido conquistado. As grandes conquistas do Brasil foram, antes de tudo, sociais, e não econômicas. O segundo fator é a tremenda tolerância do povo brasileiro. O Brasil é o primeiro país que desconhece a discriminação racial. Gente das mais diversas origens vive unida. Não é uma proposta simples, porque Lula enfrenta vários problemas, como a corrupção, falta de disciplina. Então, quero ver as mudanças que houve no país, os programas contra a pobreza e também as políticas de incentivo ao etanol. Acho que temos muito a aprender com o Brasil. O Brasil decolou de forma impressionante no domínio da ciência e tecnologia. Mas também vou ao Brasil para ver as inacreditáveis belezas do Rio de Janeiro.

O senhor também vai ao Maracanã?
Peres – Sim. Mas o Brasil não é só entretenimento. O Brasil é uma "new declaration" sobre política, economia e questões sociais. Bom, acho que um homem jovem como eu (risos), que pretende frequentar a escola, pensa em aprender algo (do Brasil). Quero ver como são as coisas em sua realidade. Acho que podemos aprofundar nossa boa relação com o Brasil. Além disso, há a comunidade judaica no Brasil, com a qual pretendo me encontrar.

E o que Israel pode ensinar ao Brasil?
Peres – Como ser pequeno (risos). Mas acho que não sei (o que ensinar). Falei brincando. O Brasil não tem um território pequeno, sem água, sem petróleo. Talvez possamos dizer como nós avançamos. Não vivemos do nosso tamanho, mas do nosso cérebro. Pode interessar ao Brasil saber como desenvolvemos a agricultura sem terra e água. Somos o primeiro país do mundo que tem uma agricultura baseada na alta tecnologia.

Quais são as expectativas de Israel em relação ao papel diplomático do Brasil no Oriente Médio?
Peres – Vocês sabem bem que a diplomacia, assim como a economia, está ficando cada vez mais global. Nenhum país pode mais viver isolado. Mas ainda não se pensa na paz como uma questão global. Para fazer a paz no Oriente Médio é preciso reduzir as ameaças num plano global e aumentar o apoio a soluções pacíficas. Gostaria muito de ver o Brasil participando.

Logo após sua visita, o Brasil vai receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, um homem que nega o Holocausto e diz querer destruir Israel. Como o senhor vê essa proximidade entre Ahmadinejad e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
Peres – Vou visitar o Brasil, e não debater com Ahmadinejad. Acredito que Lula seja um homem com valores, que (condenaria).uma tentativa de destruir um outro país de introduzir o terror, como houve este caso agora do navio abordado pela Marinha israelense cheio de armas, vindas do Irã para abastecer terroristas. Mas eu, particularmente, não vou abordar esse assunto no Brasil.

O senhor não vai tocar nesse assunto e transmitir sua mensagem a Lula sobre essa questão?
Peres – Eu certamente farei isso em conversa privada, mas não acho que seja apropriado ir a um país e falar de outro. Bom posso fazer isso privadamente, mas não em público.

O Brasil alega que receber Ahmadinejad pode ser uma forma de facilitar as negociações sobre o programa nuclear iraniano. O senhor considera um argumento válido?
Peres – Acho que devo ouvir atentamente qualquer um que se oferece a ajudar, por que não? Os iranianos não são nossos inimigos. Os árabes não são nossos inimigos tampouco. Os muçulmanos não são nossos inimigos. Nossos inimigos são a guerra, a ameaça, o terror, a destruição. Eu não vou brigar com o povo iraniano no Brasil. Sobre o presidente iraniano, todo mundo sabe há anos qual a sua posição. Acredito que não se pode esperar muita civilidade de alguém que prega a destruição de Israel, que nega o Holocausto e que ele fornece armas para o terror. Mas não gostaria que nossa atitude em relação ao governo do Brasil criasse a impressão de que estamos brigando com o o povo iraniano.

Como o sr. avalia a relação de Israel com a América Latina (a Venezuela e a Bolívia não mantêm relações diplomáticas com os israelenses)?
Peres – Tem seus altos e baixos. A América Latina desempenhou um papel muito construtvo na construção de Israel, como o presidente da Assembléia-Geral que decidiu sobre Israel (o brasileiro Osvaldo Aranha, em 1947). A relação em geral foi muito calorosa. Mas esses altos e baixos na América Latina propriamente dita. A América Latina libertou-se de ditaduras militares. Em termos gerais, a maioria dos países dessa região empenhou-se em se tornar democracias econômicas. Agora esperam ser democracias políticas também. Há algumas exceções. Chávez, por exemplo: muito petróleo e autocontrole insuficiente. Eu gosto de algumas comentários dele, como que não se deve cantar no chuveiro (risos). Ele disse que a jacuzzi vai contra o comunismo. O que ele quer dizer, claro, é que não devemos gastar água. Não tenho nada contra isso.

Mas que tipo de controle deveria ser aplicado a Chávez?
Peres – Olhe, um homem que decide que é o líder supremo para o resto da vida. Que sai por aí fazendo alianças, por exemplo, com o Irã. Que condena Israel. Por quê? Para quê? O que fez Israel à Venezuela? Tínhamos uma tradição de excelentes relações com a Venezuela. O povo venezuelano é um grande povo. Eu me pergunto como se pode injetar extremismo nas veias do povo venezuelano, mas esse é o efeito. Ele é um líder muito particular, que governa o país pela televisão. O que é interessante, devo dizer.

Mas há um crescente discurso antissemita na América Latina. Recentemente, um radialista de Honduras perguntou, ao vivo, se Adolf Hitler não estava certo por querer "acabar com essa raça" (de judeus)? Isso não o preocupa?
Peres – Fico surpreso de sermos alvo (de hostilidade) até em Honduras. Pergunte a um israelense se sabe quem é o presidente de Honduras. Fiquei surpreso de ouvir isso. Não é problema nosso. Mas como um homem honrado, devo dizer que o ódio não tem futuro (no mundo).

Entre a sua visita e a de Ahmadinejad, Lula vai receber também o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Como o senhor vê essa relação do Brasil com os palestinos?
Peres – Os árabes não são nossos inimigos. E se o Brasil tem boas relações com eles, também queremos ter. Se Abbas for amigo do Brasil e o Brasil for amigo de Abbas, por que não?

Mas Lula já foi à Síria, ao Líbano e a outros países do Oriente Médio, mas não veio a Israel...
Peres – Espero que ele encontre interesse e tempo. É como eu digo: se a montanha não vem a Maomé... Ele tem sua agenda e suas prioridades, não tenho que lhe dar lições. Nós o consideramos um amigo. Nós nos conhecemos há muito tempo. Começamos na mesma trilha socialista, então posso dizer que lembro dele "desde a "infância". Ele tem seu próprio jeito de priorizar as coisas. Claramente eu devo convidá-lo.

Qual é o nível de preocupação de Israel com a crescente penetração do Irã e do Hizbollah na América Latina?
Peres – Não houve interferência iraniana na América Latina. Veja a Argentina. Eles explodiram uma bomba no Centro Judaico e mataram centenas de pessoas. E você acha que a Argentina queria isso? Quem quer uma interferência com bombas? Quem quer uma intervenção do terrorismo? Uma intervenção de ódio? A maioria dos povos latino-americanos é pacifista. E a lei deles é como a nossa, a lei da amizade, da paz, do respeito humano. Não acredito que isso vá mudar. O Irã está afastado dessa mensagem. Essa intervenção do Irã não vai durar mais que a própria permanência do presidente atual. Qual é a mensagem deles? Querem dominar o resto do mundo? Isso é mensagem? O chamado "sistema presidencialista iraniano" não vai durar para sempre, pois eles não têm nada a oferecer ao resto da humanidade, nem sequer para seu próprio povo. Mas eles têm essa tremenda ambição de dominar, de bancar os super-homens. Não aceitamos isso e não acreditamos que a América do Sul aceitará isso.

Saiba mais
"Não esperem civilidade de Ahmadinejad"

Se o regime de Ahmadinejad permanecer por mais tempo e as negociações com Teerã fracassarem, está na mesa a hipótese de Israel atacar o Irã?
Peres – Israel não tem intenção de monopolizar o problema do Irã. Esse é um problema para o mundo. Temos que seguir a liderança do mundo. Em segundo lugar, não gostaria de falar várias línguas ao mesmo tempo. Não colocaria a opção militar acima de tudo. Tudo que puder ser feito pacífica, política, econômica e psicologicamente deve ser feito. Não somos os líderes do mundo. Já conversei com muitos líderes mundiais - Medvedev, Putin, não só Obama, Sarkozy ou Brown - e todos me disseram estar empenhados em evitar uma bomba nuclear iraniana.